Canção para Ninar Menino Grande, de Conceição Evaristo — O Homem Contado Pelas Mulheres

Canção para Ninar Menino Grande, de Conceição Evaristo (Pallas): o romance sobre Fio Jasmim, contado pelas mulheres que o amaram, e a masculinidade negra.

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Canção para Ninar Menino Grande, de Conceição Evaristo — O Homem Contado Pelas Mulheres

Há um episódio da infância de Fio Jasmim que o livro faz questão de lembrar. Na escola, depois de contar a história da Cinderela, a professora monta uma encenação com as crianças, e o menino quer ser o príncipe. Não pode: o papel vai para um menino branco e loiro. É uma cena curta, quase banal, do tipo que tantas crianças negras viveram sem que ninguém percebesse o que estava sendo ensinado ali. Mas Conceição Evaristo a coloca no começo da vida do protagonista como uma ferida que ajuda a entender o homem que ele vai se tornar — alguém que passa a vida inteira tentando provar, de outro jeito, que também pode ser desejado, escolhido, admirado. Canção para Ninar Menino Grande é a história desse homem, contada não por ele, mas pelas mulheres que passaram pela vida dele.

O romance saiu primeiro em 2018 e ganhou uma versão revista e ampliada em 2022, pela Pallas, depois que a própria autora se disse insatisfeita com a primeira. É hoje um dos livros brasileiros mais avaliados da Amazon, ao lado de Olhos d'Água, da mesma autora.

Edição revista e ampliada da Pallas, 136 páginas. Ver preço na Amazon →

Do Que Fala Canção para Ninar Menino Grande

Fio Jasmim é casado com Pérola Maria desde a juventude e tem com ela muitos filhos. Tem também filhos com outras mulheres, espalhados pela vizinhança e por diferentes lugares do país. O livro não o acompanha em linha reta; ele aparece pelos fragmentos de memória de cada mulher com quem se envolveu — a esposa, as amantes, as mulheres que ele seduziu e deixou. Uma delas, Juventina Marina Perpétua, sua amante por muitos anos, compôs para ele a canção que dá nome ao livro.

Cada voz feminina oferece um pedaço diferente do mesmo homem: o sedutor, o pai ausente, o marido que volta, o menino carente que nunca deixou de existir dentro dele. O retrato que se forma não é de herói nem de vilão, mas de alguém que fere e é ferido, que ama e não sabe amar.

A Masculinidade Que Se Aprende Cedo

O tema central do livro é a masculinidade de homens negros e o efeito que ela tem sobre as mulheres negras com quem eles se relacionam. Conceição Evaristo não absolve Fio Jasmim — as mulheres sofrem com as escolhas dele, e o livro dá a elas o espaço que ele raramente deu —, mas também não o trata como monstro. Ela mostra como uma virilidade construída sobre conquistas e abandono pode ser, ela também, uma resposta a humilhações antigas, a uma sociedade que negou a esses homens outras formas de valor.

É uma leitura que exige sutileza, e o livro a tem. A cena da Cinderela não serve como desculpa; serve como pista. A criança a quem se negou o lugar de príncipe vira o adulto que precisa ser desejado por muitas mulheres para se sentir alguém. Quem trabalha com a história emocional das pessoas reconhece esse mecanismo: aquilo que não foi reconhecido na infância costuma voltar, mais tarde, como uma fome que nenhuma conquista sacia.

Contar a História Pelas Mulheres

A escolha de narrar Fio Jasmim pelas vozes das mulheres é o grande gesto do livro. Durante muito tempo, a literatura contou as histórias de homens sedutores a partir deles mesmos, com as mulheres como cenário. Aqui é o contrário: são elas que lembram, avaliam, perdoam ou não perdoam. Cada uma carrega uma parte da história dele e uma parte da própria história, e o livro dá a essas experiências — de desejo, de espera, de abandono, de criar filhos sozinhas — o peso que elas têm na vida real.

É também uma aplicação direta da escrevivência, o conceito com que Conceição Evaristo define a própria escrita: transformar em literatura a experiência vivida, sobretudo a das mulheres negras, que por muito tempo não teve lugar nos livros.

Uma Canção de Ninar Para Um Adulto

O título diz muito. Canção de ninar é o que se canta para acalmar uma criança, e chamar um homem feito de "menino grande" é reconhecer que, por baixo do sedutor, há alguém que nunca deixou de precisar de colo. A canção que Juventina compõe é, ao mesmo tempo, declaração de amor e diagnóstico. O livro inteiro tem esse tom: carinhoso e doloroso, como define a própria descrição da editora, um mosaico de experiências negras contadas com afeto e sem ilusões.

Para Quem Esta Leitura Faz Sentido

Canção para Ninar Menino Grande é para quem quer conhecer a ficção de Conceição Evaristo num formato de romance curto, e para quem se interessa por relações amorosas, masculinidade e memória. É uma leitura rápida, mas que pede atenção às vozes que se alternam. Quem gostar pode seguir para Olhos d'Água, a coletânea de contos da autora, ou para Ponciá Vicêncio e Becos da Memória.

Dúvidas Comuns dos Leitores

Canção para Ninar Menino Grande é romance ou poesia?

É um romance, apesar do título. A canção do título é uma das peças da história, composta por uma das personagens.

Qual edição comprar?

A edição da Pallas, de 2022, é a versão revista e ampliada pela autora, e a que recomendamos. A primeira versão, de 2018, foi reescrita por ela.

Por onde começar a ler Conceição Evaristo?

Olhos d'Água, de contos, é a porta de entrada mais comum. Canção para Ninar Menino Grande é uma boa escolha para quem prefere começar por um romance curto.

Pronto para começar? A edição da Pallas é a nossa recomendação. Ver preço na Amazon →

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