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# Frankenstein — O Monstro Que Nunca Teve Nome Porque o Verdadeiro Monstro Era Outro
- URL: https://www.faroldoleitor.com.br/frankenstein-mary-shelley-monstro/
- Published: 2026-09-02T23:00:02.000Z
- Updated: 2026-10-10T20:14:59.000Z
- Description: Frankenstein, de Mary Shelley, é sobre abandono, responsabilidade e a criatura sem nome. Entenda por que o monstro não é quem parece.
- Author: Renato Guimarães
- Tags: Terror e Horror

> "Eu era benevolente e bom; a miséria fez de mim um demônio."  
>  
> — A criatura, em *Frankenstein*, Capítulo XVI

Quando pensamos em *Frankenstein*, quase sempre imaginamos o monstro. A criatura enorme, remendada, silenciosa, perseguindo aqueles que a rejeitaram. Mas o romance de Mary Shelley, publicado originalmente em 1818, começa a ficar muito mais interessante quando percebemos que a criatura não nasce monstruosa.

Ela aprende a ser.

Victor Frankenstein cria vida e, no instante em que consegue aquilo que desejava, abandona sua criação. A criatura nasce sem nome, sem orientação e sem alguém que lhe ensine o que significa existir. Aprende observando os outros, descobre a linguagem, percebe a beleza, deseja companhia e, sobretudo, descobre uma coisa devastadora: os outros têm medo dele antes mesmo de conhecê-lo.

É aí que Mary Shelley desloca a pergunta central. O que transforma alguém em monstro: aquilo que existe dentro dele ou a maneira como o mundo decide tratá-lo?

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## A Criatura Que Só Queria Pertencer

O aspecto mais surpreendente do romance está justamente na voz da criatura. Quando finalmente podemos ouvi-la, descobrimos alguém capaz de pensar, sentir e desejar profundamente. Ele quer ser aceito. Quer companhia. Quer ter algum lugar no mundo. A violência não aparece como sua primeira linguagem, mas como uma resposta à rejeição repetida.

Sua própria reflexão diante de Victor resume a tragédia:

> "Lembra-te de que sou tua criatura; eu deveria ser teu Adão, mas sou antes o anjo caído, que expulsaste da alegria sem ter cometido falta alguma."  
>  
> — A criatura confronta Victor Frankenstein, Capítulo XVI

A frase é extraordinária porque transforma o romance em uma história sobre responsabilidade. Victor queria o poder de criar, mas não queria a responsabilidade de cuidar. Queria ultrapassar os limites da natureza, mas não pensou no que aconteceria com aquilo que colocaria no mundo.

E talvez seja justamente aí que esteja o verdadeiro horror.

Não criar um monstro.

Criar alguém e se recusar a reconhecer que ele é sua responsabilidade.

A criatura não recebe sequer um nome. É chamada de monstro, demônio, criatura, aberração. Essa ausência de nome importa porque o nome é uma das primeiras formas pelas quais reconhecemos alguém como indivíduo. Antes de ser odiada, ela é simplesmente não reconhecida.

## O Que Mary Shelley Estava Perguntando?

É fácil ler *Frankenstein* apenas como uma história sobre ciência que saiu do controle. Mas o romance é muito maior. Mary Shelley fala sobre ambição, solidão, abandono, responsabilidade e a necessidade humana de ser reconhecida pelo outro.

Victor também é uma figura profundamente psicológica. Seu erro não termina quando a criatura ganha vida. A partir dali, ele passa a ser perseguido por aquilo que criou e pela própria incapacidade de assumir o vínculo com sua criação. Ele quer destruir aquilo que um dia desejou profundamente construir.

É uma contradição muito humana: queremos controlar as consequências das nossas escolhas sem necessariamente aceitar a responsabilidade por elas.

Talvez por isso *Frankenstein* continue tão atual. Podemos pensar na criação científica, na inteligência artificial, nas relações familiares ou em qualquer situação em que colocamos alguma coisa no mundo e depois tentamos nos afastar de suas consequências.

Mary Shelley não pergunta apenas se podemos criar.

Pergunta: o que devemos àquilo que criamos?

## Por Que Vale a Pena Ler

*Frankenstein* é um clássico que merece ser lido não apenas pelo peso de seu nome, mas porque ainda possui uma capacidade impressionante de nos deixar moralmente desconfortáveis. A criatura é assustadora, mas também desperta compaixão. Victor é vítima de sua própria criação, mas também é responsável por aquilo que ela se tornou.

E talvez essa seja a genialidade do romance: não existe um monstro completamente separado do homem que o criou.

Quanto mais conhecemos a criatura, mais difícil fica chamá-la simplesmente de monstro.

Quanto mais conhecemos Victor, mais difícil fica vê-lo apenas como vítima.

E talvez seja nesse ponto que Mary Shelley nos encontre.

Porque todos nós somos capazes de perguntar quem está errado.

Mais difícil é perguntar: qual foi a nossa parte nisso?

## Dúvidas Comuns dos Leitores

### A criatura de Frankenstein tem nome?

Não. Mary Shelley nunca dá um nome próprio à criatura. Ela é chamada de criatura, monstro, demônio e outros termos semelhantes ao longo do romance.

### O livro é igual ao filme clássico?

Não. O romance é muito mais filosófico e psicológico do que as adaptações cinematográficas costumam mostrar, especialmente na relação entre Victor e sua criação.

### É um livro difícil?

Não, embora a linguagem das edições possa conservar certo sabor do século XIX. O maior desafio está menos na narrativa e mais nas questões que o romance levanta.

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