Memórias Póstumas de Brás Cubas — O Homem que Transformou a Própria Vaidade em Espelho para Todos Nós
Uma leitura psicológica de Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, sobre vaidade, desejo e ironia — e por que continua atual.
"Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis; nada menos."
— Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas, Capítulo XVII
Há coisas que parecem ter sido escritas ontem. Leia esta frase novamente: "quinze meses e onze contos de réis". Brás Cubas consegue transformar um caso de amor em uma espécie de prestação de contas, e Machado pega aquilo que deveria ser uma lembrança sentimental e introduz no meio dela uma cifra. O efeito é engraçado, cruel e, quanto mais pensamos, mais desconfortável — porque nós fazemos isso o tempo inteiro, talvez não com contos de réis, mas com visualizações, curtidas, seguidores, convites, viagens, cargos e salários. Medimos nosso valor e o valor das pessoas através de sinais, e transformamos relações em pequenas contabilidades que quase nunca admitimos estar fazendo.
Machado já sabia disso em 1881, quando publicou Memórias Póstumas de Brás Cubas e inaugurou uma das fases mais brilhantes da literatura brasileira. Por isso, mais do que uma aula sobre o Realismo ou uma explicação de como a máquina machadiana funciona por dentro, este texto é um convite: leia Brás Cubas e observe a si mesmo. Talvez essa seja uma das coisas mais geniais que Machado fez — criou um personagem tão cheio de vaidade, desculpas, desejos e pequenas fraquezas que, em algum momento, o leitor percebe que está rindo dele e, logo depois, precisa perguntar se não está rindo também de si mesmo.
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Machado de Assis e a Sua Genialidade
Machado de Assis nasceu no Rio de Janeiro em 1839 e morreu na mesma cidade em 1908. Foi jornalista, cronista, contista, romancista, poeta, dramaturgo e um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, que presidiu por mais de uma década. Mas os dados biográficos, embora importantes, não explicam sua grandeza — o que fascina em Machado é outra coisa: ele entende as pessoas. Entende o homem que quer parecer melhor do que é, a mulher que deseja sem admitir que deseja, o sujeito que inventa uma justificativa elegante para uma decisão egoísta, a pessoa que sofre não apenas pelo que perdeu, mas porque gostaria que os outros reconhecessem sua perda. E entende, sobretudo, nossa capacidade extraordinária de contar histórias para nós mesmos até que comecemos a acreditar nelas.
É aí que Machado se torna genial: não porque escreva personagens perfeitos, mas porque escreve personagens reconhecíveis. Brás Cubas não é um grande homem — e talvez justamente por isso seja um personagem tão grande. Ele é privilegiado, vaidoso, preguiçoso, ambicioso sem grande disposição para o esforço e profundamente preocupado com a própria imagem. Depois da morte, porém, ganha aquilo que não conseguiu possuir plenamente em vida: a liberdade de contar sua história sem precisar prestar contas aos vivos. Machado encontrou uma solução brilhante — matou o narrador antes de deixá-lo falar — e isso muda tudo.
O Defunto Que Finalmente Pode Dizer o Que Pensa
Brás Cubas narra sua própria vida depois de morto. A primeira consequência disso é aparentemente simples: ele já não precisa impressionar ninguém. Mas existe uma ironia escondida aí — será mesmo que ele está dizendo toda a verdade? A morte retira do personagem algumas preocupações, mas não elimina sua vaidade. Mesmo depois de morrer, Brás continua olhando para a própria vida, organizando episódios, comentando pessoas e tentando controlar a interpretação que fazemos dele. O morto ainda quer ser interessante, ainda quer ser admirado, ainda quer ter razão.
Essa é uma das grandes invenções psicológicas de Machado: a morte não purifica Brás Cubas, ela apenas lhe oferece uma nova posição para continuar sendo Brás Cubas. E nós, leitores, ficamos diante de um narrador em quem não podemos confiar completamente — não porque ele seja um mentiroso convencional, mas porque possui interesse demais na própria versão dos fatos. Machado compreendeu algo que continua verdadeiro: somos excelentes em explicar a nós mesmos, mas nem sempre igualmente bons em nos conhecer.
Brás Cubas Diante do Olhar do Outro
Há uma camada existencial em Brás Cubas que vale a pena olhar de perto. O filósofo francês Jean-Paul Sartre descreveu, no século seguinte, um mecanismo que batizou de má-fé: a capacidade humana de mentir para si mesmo, sendo ao mesmo tempo quem engana e quem é enganado, sem que isso exija hipocrisia consciente. Sartre também falava do "olhar do Outro" — a ideia de que boa parte de como nos vemos é moldada pela forma como imaginamos ser vistos por quem nos observa.
Brás Cubas vive quase inteiramente dentro desse olhar alheio, mesmo depois de morto. Ele não quer apenas ter feito coisas — quer que essas coisas tenham sido vistas, reconhecidas, admiradas. Sua vaidade não é vontade de ser algo, é vontade de parecer algo diante de uma plateia que ele nunca deixa de imaginar. Nesse sentido, Brás também ilustra bem aquilo que o filósofo alemão Martin Heidegger chamava de existência absorvida no "das Man" — no "a gente", no impessoal, na vida conduzida pelo que se espera, pelo que se comenta, pelo que socialmente se valoriza, em vez de por uma relação mais honesta consigo mesmo. Brás raramente pergunta o que ele realmente quer; pergunta, quase sempre, o que fará dele alguém importante aos olhos dos outros.
É uma leitura humanista, no fim das contas: Machado não está interessado em condenar Brás por ser vaidoso, mas em mostrar como essa vaidade é profundamente humana, compartilhada, quase universal — e como ela nos afasta, sem que percebamos, de uma vida vivida por dentro em vez de para fora.
Brás Cubas e o Homem das Redes Sociais
Quando penso em Brás Cubas hoje, inevitavelmente penso nas redes sociais — não porque Machado tivesse previsto Instagram, TikTok ou X, seria uma leitura fácil demais, mas porque ele percebeu algo muito mais profundo: a necessidade humana de construir uma versão de si mesmo para os outros. Brás Cubas vive preocupado com a própria posição, quer ser reconhecido, quer participar dos lugares certos, quer deixar alguma coisa que justifique sua existência. Hoje podemos fazer isso em tempo real: publicamos uma fotografia, escolhemos uma legenda, apagamos aquilo que não favorece nossa imagem, mostramos a viagem mas não a discussão que aconteceu antes dela, mostramos a conquista, não as horas de dúvida.
Brás Cubas também constrói a sua pequena autobiografia diante de uma plateia. A diferença é que ele tem um privilégio extraordinário: já está morto e, portanto, não precisa mais responder imediatamente pelos comentários dos outros. Ainda assim, passa o livro inteiro tentando administrar nossa percepção sobre ele — o que é profundamente atual, talvez até mais atual do que seria confortável admitir.
O Desejo de Brás Cubas
O que Brás Cubas quer? A pergunta parece simples, mas Machado nunca entrega respostas simples. Brás quer dinheiro, mulheres, reconhecimento, prestígio, uma vida importante, uma marca, quer ser lembrado — mas existe algo por trás desses desejos: Brás Cubas quer sentir que sua vida valeu a pena, e essa talvez seja a necessidade mais humana de todas. O problema é que ele procura satisfazê-la por caminhos externos: quer o amor de Marcela, quer Virgília, quer o projeto do emplasto, quer uma carreira, uma posição social, quer ser alguém.
Quase sempre existe uma característica desconfortável nesses desejos: parecem menos relacionados ao que Brás realmente ama e mais relacionados ao que ele gostaria de ser visto como sendo. Uma pessoa pode querer uma profissão porque ama o trabalho, ou porque deseja o reconhecimento que ela oferece; pode querer um relacionamento porque ama alguém, ou porque deseja ser amado; pode compartilhar alguma coisa porque deseja compartilhar, ou porque precisa ser visto. Essas motivações podem coexistir, e Machado sabe disso — em vez de julgar diretamente, ele mostra.
A Ironia Machadiana
Não dá para ler Memórias Póstumas de Brás Cubas sem perceber a ironia, mas é importante entender que a ironia de Machado não é simplesmente fazer piada. Ela é uma forma de pensamento: Machado diz uma coisa e nos faz perceber outra, e frequentemente permite que o próprio personagem revele aquilo que não gostaria de revelar. A frase sobre Marcela é um exemplo perfeito — "amou-me" parece começar como declaração romântica, e então entram os "onze contos de réis", e o amor muda de temperatura.
O riso aparece, mas logo depois vem algo mais desconfortável: percebemos que Brás também participou daquela lógica. Ele não está simplesmente contando que foi enganado; está contando o quanto estava disposto a gastar para sustentar aquela relação. A ironia volta contra ele. O narrador quer controlar nossa leitura, mas acaba oferecendo pistas suficientes para que percebamos aquilo que ele não percebe — ou não quer perceber. Essa distância entre o que Brás diz e o que o leitor entende é um dos lugares em que a genialidade machadiana aparece com mais força.
Machado e o Cuidado Diário com o Humano
Ler Machado de Assis, principalmente suas obras mais psicológicas, ajuda no cuidado diário do trabalho como psicólogo — não porque literatura substitua conhecimento técnico, mas porque ensina algo que nenhuma teoria entrega completamente: como é estar dentro da contradição de uma pessoa. Um conceito pode explicar um comportamento; um personagem pode fazer com que o sintamos. Em Machado, encontramos homens e mulheres que querem coisas incompatíveis, que sentem vergonha do que desejam, que desejam justamente aquilo que sabem que não deveriam desejar, que inventam justificativas, que escondem de si mesmos aquilo que já perceberam.
Isso lembra diariamente de algo fundamental no trabalho com pessoas: ninguém chega à própria vida como uma história organizada. Chegamos cheios de contradições, com medo de coisas que não confessamos, desejando coisas que nos envergonham, construindo versões de nós mesmos e, às vezes, passando anos defendendo uma narrativa que já não nos serve. Machado é um observador extraordinário desse território, e talvez seja justamente por isso que sua literatura envelheça tão pouco.
Uma Obra Para Reler, Não Apenas Para Ler
Talvez Memórias Póstumas de Brás Cubas seja daqueles livros que deveriam ser relidos em diferentes momentos da vida. Aos vinte anos, podemos rir de Brás; mais tarde, talvez reconheçamos nele algumas pessoas que conhecemos; depois, eventualmente, percebamos algo ainda mais desconfortável — que também somos um pouco dele. Não da maneira caricatural, não na soma de seus privilégios e defeitos, mas naquilo que há de universal em sua necessidade de ser visto, de justificar a própria vida e de construir uma narrativa sobre quem somos.
Na primeira leitura, acompanhamos a história. Na segunda, observamos a ironia. Na terceira, percebemos o personagem. E talvez, em alguma releitura futura, percebamos a nós mesmos. A graça de Machado é que ele não precisa nos acusar — ele simplesmente coloca Brás Cubas diante de nós e deixa que façamos o trabalho.
Para Quem Esta Leitura Faz Sentido
Este é um livro para quem gosta de literatura que não termina quando a história termina, para quem quer rir mas também quer descobrir por que está rindo, para quem se interessa por personagens ambíguos, vaidade, desejo, relações sociais e as pequenas mentiras que contamos aos outros — e principalmente a nós mesmos. É também uma excelente porta de entrada para Machado porque, apesar da idade do texto, o narrador estabelece uma relação muito direta com quem lê: conversa, provoca, interrompe, muda de assunto e até parece antecipar nossa reação.
Vale uma recomendação especial a quem já leu o romance há muitos anos: releia. Leia Brás Cubas com a idade que você tem agora, observe o que mudou em sua percepção, veja se aquilo que antes parecia apenas engraçado agora parece triste, se aquilo que antes parecia arrogante agora parece familiar. Talvez Machado esteja esperando justamente por essa segunda leitura.
Dúvidas Comuns dos Leitores
Memórias Póstumas de Brás Cubas é um livro difícil?
Não precisa ser. A linguagem exige alguma adaptação por ser um texto do século XIX, mas Machado cria um narrador tão próximo e espirituoso que a leitura pode ser surpreendentemente divertida. O desafio maior está nas camadas de ironia, não na história em si.
Brás Cubas é um personagem bom ou mau?
É mais interessante não escolher nenhum dos dois. Brás é vaidoso, egoísta e profundamente limitado, mas também é inteligente, espirituoso e capaz de perceber certas verdades sobre si mesmo. Machado não quer que o leitor simplesmente o condene; quer que compreenda sua humanidade.
Qual edição vale a pena comprar?
Uma edição integral e acessível é suficiente para entrar diretamente na obra. Para quem preferir uma edição com introdução e notas mais voltadas ao contexto literário e histórico, há também publicações comentadas que podem enriquecer uma releitura.
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