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# O Conto da Aia — O Que o Livro de Margaret Atwood Diz Sobre Poder, Corpo e Obediência
- URL: https://www.faroldoleitor.com.br/o-conto-da-aia-margaret-atwood-analise/
- Published: 2026-10-09T01:25:00.000Z
- Updated: 2026-10-10T20:26:05.000Z
- Description: O que O Conto da Aia, de Margaret Atwood, diz sobre poder e controle do corpo? Análise do livro da Rocco (trad. Ana Deiró) que virou série premiada.
- Author: Renato Guimarães
- Tags: Ficção Científica

> "Nolite te bastardes carborundorum."  
>  
> — Margaret Atwood, *O Conto da Aia*, capítulo 9

A frase está riscada no chão do armário, num canto onde só alguém que se abaixasse muito poderia encontrá-la. Offred, a narradora, não sabe latim e não tem a quem perguntar o que aquilo significa, mas sabe que foi escrito por outra mulher, a aia que ocupou aquele quarto antes dela. E isso basta. Durante muitos capítulos, a frase funciona como uma mensagem de alguém que esteve no mesmo lugar e deixou um sinal de que ainda pensava por conta própria. Quando enfim descobre o que ela quer dizer — uma brincadeira de colegial em latim errado, algo como "não deixe os desgraçados te esmagarem" —, Offred descobre também que a frase veio do próprio Comandante, e que a mulher que a escreveu não sobreviveu. Poucas cenas resumem tão bem *O Conto da Aia*: até a resistência, em Gilead, chega às mulheres filtrada pelas mãos dos homens que as controlam.

Publicado em 1985, o romance de Margaret Atwood se tornou um dos livros mais citados do nosso tempo — e não só por causa da série de televisão. Recebeu o Governor General's Award, no Canadá, no ano de lançamento, foi finalista do Booker Prize no ano seguinte e venceu o primeiro Arthur C. Clarke Award. No Brasil, é publicado pela Rocco com tradução de Ana Deiró, e continua entre os livros mais vendidos da Amazon quatro décadas depois de escrito.

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## Do Que Fala O Conto da Aia

Gilead é o país que surgiu onde antes ficavam os Estados Unidos, depois que um grupo fundamentalista tomou o poder num cenário de queda brutal da natalidade. As mulheres perderam o direito de trabalhar, de ter dinheiro e de ler. As poucas que ainda podem ter filhos foram transformadas em aias: vestidas de vermelho, designadas para a casa de um Comandante, obrigadas a participar de uma cerimônia mensal cujo único objetivo é gerar um bebê para o casal que as "abriga". Elas não têm sequer nome próprio. Offred quer dizer, literalmente, "de Fred" — o nome do homem a quem ela pertence.

O livro é o relato de Offred, contado em fragmentos, misturando o presente sufocante em Gilead com lembranças da vida anterior — o marido, a filha que lhe foi tirada, a mãe, a amiga Moira, os dias em que podia sair sozinha para comprar um café. A narrativa avança devagar, como avançam os dias de alguém que não tem nada para fazer além de esperar, e é exatamente essa lentidão que torna o livro tão perturbador: o horror de Gilead não está apenas nas cenas extremas, mas na rotina.

## Quando o Poder Passa a Morar no Corpo

O filósofo francês Michel Foucault usou a palavra biopoder para descrever uma forma de poder que não se contenta em proibir ou punir: ela passa a administrar a vida das pessoas — o nascimento, a saúde, a sexualidade, a reprodução. Gilead é quase uma caricatura extrema dessa ideia. O corpo da aia não é dela; é um recurso do Estado, cuidado, vigiado, alimentado e examinado como se fosse um útero com pernas. Offred diz, em certo momento, que antes pensava no próprio corpo como um instrumento de prazer ou de locomoção, e que agora ele se tornou outra coisa — um centro em torno do qual tudo gira.

O que impressiona é a coerência desse controle. Ele não se apoia apenas na violência explícita, embora ela exista; apoia-se também em roupas que impedem de ver e de ser vista, em saudações obrigatórias com fórmulas religiosas, em lojas cujas placas trazem só desenhos porque as mulheres não podem mais ler, em proibições tão pequenas que acabam passando despercebidas. Atwood costuma dizer que não colocou no livro nada que a humanidade já não tivesse feito em algum lugar, em algum momento da história. É por isso que *O Conto da Aia* não envelhece: ele não descreve um futuro impossível, mas um arranjo de práticas que já existiram, reunidas num só lugar.

## A Obediência Que Começa Pequena

Há uma passagem na qual Offred lembra como tudo começou, e ela é talvez a mais assustadora do livro justamente porque nada nela é espetacular. As contas bancárias das mulheres são bloqueadas de um dia para o outro; o emprego acaba; as pessoas ficam indignadas por algum tempo e depois se acostumam. A pergunta que o romance deixa no ar não é como um regime desses pode ser tão cruel, mas como as pessoas comuns vão se adaptando a ele, um passo de cada vez, até que o inaceitável vire rotina.

A palavra-chave aqui é adaptação. Offred não é uma heroína; ela mesma diz que preferia não estar contando essa história. Ela obedece, negocia pequenas liberdades, aceita os encontros proibidos com o Comandante porque eles trazem revistas antigas, um jogo de palavras, um pouco de conversa. É uma sobrevivente, e o livro tem a honestidade de mostrar que sobreviver, às vezes, significa ceder. Quem trabalha com pessoas que viveram situações de controle extremo — relações abusivas, ambientes de violência — reconhece esse mecanismo: a mente encontra jeitos de tornar suportável o que não deveria ser suportado, e esses jeitos raramente parecem heroicos vistos de fora.

## As Mulheres Que Também Vigiam

Um dos aspectos mais incômodos de *O Conto da Aia* é que Gilead não é sustentada só por homens. Há as Tias, que treinam as aias com uma mistura de religião e humilhação; há as Esposas, como Serena Joy, que antes defendia publicamente que as mulheres voltassem para casa e agora vive presa dentro da casa que defendeu; há as Marthas, que fazem o serviço doméstico e observam tudo. Cada grupo tem um pequeno privilégio a defender e, por isso, ajuda a manter o sistema que oprime todos os outros.

Atwood não usa isso para culpar as mulheres; usa para mostrar como um regime autoritário se espalha pelas relações cotidianas, transformando vizinhas em vigilantes e colegas em suspeitas. A amizade, em Gilead, vira um risco. É por isso que a frase no armário pesa tanto: ela é uma das raras pontes entre duas mulheres num mundo construído para que nenhuma confie na outra.

## Para Quem Esta Leitura Faz Sentido

*O Conto da Aia* é leitura obrigatória para quem gosta de distopias e quer entender por que este livro se tornou referência ao lado de *1984* e *Admirável Mundo Novo*. Diferente deles, porém, Atwood conta a história de dentro do corpo de uma pessoa, e não do ponto de vista de quem tenta entender o sistema — o que torna a leitura mais íntima e, para muitos leitores, mais difícil.

É também um livro que trata de violência sexual, de separação forçada entre mãe e filha e de suicídio, sem descrições gratuitas, mas sem desviar o olhar. Vale ler sabendo disso. E vale ler até o fim, inclusive as "Notas históricas" que encerram o volume: elas mudam a forma como entendemos tudo o que veio antes, e dizem tanto sobre o nosso presente quanto o próprio relato de Offred.

## Dúvidas Comuns dos Leitores

### O Conto da Aia é igual à série?

A primeira temporada da série segue o livro de perto, mas a partir da segunda a história avança muito além do que Atwood escreveu. Explicamos o que muda no guia [O Conto da Aia: livro x série](https://www.faroldoleitor.com.br/o-conto-da-aia-livro-x-serie-os-testamentos/). A série estreou em 2017 e foi a primeira produção de streaming a vencer o Emmy de melhor série dramática, com Elisabeth Moss premiada como melhor atriz no papel de Offred.

### O Conto da Aia tem continuação?

Tem. *Os Testamentos*, publicado em 2019, se passa cerca de quinze anos depois e é narrado por três mulheres diferentes. O livro dividiu o Booker Prize de 2019 com *Garota, Mulher, Outras*, de Bernardine Evaristo.

### O que significa "Nolite te bastardes carborundorum"?

É um latim inventado, uma brincadeira de colegial que pode ser traduzida como "não deixe os desgraçados te esmagarem". No livro, Offred encontra a frase riscada no armário e só descobre o significado mais tarde, pelo próprio Comandante.

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## Leia também

- [O Conto da Aia: Livro x Série — O Que Muda e Se Precisa Ler Os Testamentos](https://www.faroldoleitor.com.br/o-conto-da-aia-livro-x-serie-os-testamentos/)
- [1984 — A Distopia Que Previu o Presente Antes de Ser Escrita](https://www.faroldoleitor.com.br/1984-george-orwell-analise/)
- [Admirável Mundo Novo: Quando a Felicidade se Torna uma Forma de Controle](https://www.faroldoleitor.com.br/admiravel-mundo-novo-aldous-huxley-analise/)
- [Ensaio sobre a Cegueira — Cegos Que Veem, Cegos Que Não Veem](https://www.faroldoleitor.com.br/ensaio-sobre-a-cegueira-saramago-analise/)