Olhos d'Água, de Conceição Evaristo — Memória, Mulheres Negras e a Escrevivência

Olhos d'Água, de Conceição Evaristo (Pallas): uma leitura dos contos sobre memória, maternidade e violência, e o que é a escrevivência da autora.

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Olhos d'Água, de Conceição Evaristo — Memória, Mulheres Negras e a Escrevivência
"Uma noite, há anos, acordei bruscamente e uma estranha pergunta explodiu da minha boca. De que cor eram os olhos de minha mãe?"

— Conceição Evaristo, Olhos d'Água, conto "Olhos d'água"

A pergunta que abre o livro parece simples, e é justamente por isso que desconcerta. Como alguém pode não saber a cor dos olhos da própria mãe? A narradora sabe tudo sobre ela — o riso, as brincadeiras que inventava com os filhos, os detalhes do corpo —, mas a cor dos olhos lhe escapa, e o conto inteiro é a busca por essa lembrança. Conceição Evaristo transforma uma falha de memória numa pergunta sobre o que guardamos de quem nos criou, e sobre o que a vida dura apaga até das coisas mais próximas. Quem já tentou recompor o rosto de alguém amado a partir de lembranças desencontradas reconhece essa angústia, e quem leu o conto até o fim dificilmente esquece a resposta.

Olhos d'Água foi publicado pela Pallas em 2014 e premiado no Jabuti de 2015, na categoria contos. São quinze histórias, quase todas protagonizadas por mulheres negras, e o livro se tornou uma das portas de entrada mais procuradas para a obra da autora — hoje está entre os livros mais avaliados da Amazon brasileira, presença rara para uma coletânea de contos de literatura brasileira contemporânea.

Edição da Pallas, 116 páginas. Ver preço na Amazon →

Quem é Conceição Evaristo

Maria da Conceição Evaristo de Brito nasceu em 1946, numa favela da região centro-sul de Belo Horizonte, e trabalhou como empregada doméstica antes de se mudar para o Rio de Janeiro nos anos 1970, onde se formou em Letras, fez mestrado e, mais tarde, doutorado em Literatura Comparada. Começou a publicar tarde, e a demora diz muito sobre o lugar que o mercado editorial reservava para escritoras negras. Seus romances Ponciá Vicêncio e Becos da Memória e os contos de Olhos d'Água a transformaram numa das vozes mais importantes da literatura brasileira contemporânea.

Foi ela quem criou o termo escrevivência: a escrita que nasce da experiência vivida, especialmente da experiência de mulheres negras, e que transforma essa memória — pessoal e coletiva — em ficção. Não se trata de autobiografia, mas de escrever a partir de um lugar no mundo que por muito tempo não teve voz na literatura.

Mulheres que Seguram o Mundo

As protagonistas de Olhos d'Água são, em sua maioria, mulheres pobres, negras, moradoras de favelas e periferias, atravessadas por diferentes formas de violência — a da pobreza, a da polícia, a dos companheiros, a do abandono. Contos como "Ana Davenga" e "Duzu-Querença" acompanham personagens cuja vida vai sendo empurrada para a margem, e a autora não suaviza o que acontece com elas.

O que impressiona, porém, é que o livro nunca reduz essas mulheres ao sofrimento. Elas amam, sonham, brincam com os filhos, inventam jeitos de continuar, têm memória e desejo. Há uma ternura constante na forma como Evaristo olha para as personagens, e essa ternura é o que torna a violência ainda mais dolorosa de ler: sabemos quem eram aquelas pessoas antes que o mundo as tratasse como se não valessem nada.

A Memória Como Herança

A pergunta sobre a cor dos olhos da mãe ecoa por todo o livro. Em vários contos, a memória aparece como a única herança possível para quem não herdou terra, dinheiro ou segurança — lembranças de mães, avós, tias, de canções, de gestos, de comidas. Lembrar, nessas histórias, é uma forma de resistir ao apagamento.

Quem trabalha com pessoas sabe quanto da nossa identidade é feita daquilo que nos contaram e do que conseguimos recordar sobre de onde viemos. Para famílias cuja história foi sistematicamente interrompida — pela escravidão, pela migração forçada, pela pobreza —, recompor essa memória é também recompor um lugar no mundo. Os contos de Evaristo fazem esse trabalho com uma delicadeza que não dispensa a dor.

Para Quem Esta Leitura Faz Sentido

Olhos d'Água é para quem quer conhecer a literatura brasileira contemporânea a partir de vozes que por muito tempo ficaram de fora dela, e para quem gosta de contos curtos e intensos, que se leem de uma vez e ficam ecoando por dias. É também uma ótima entrada para a obra de Conceição Evaristo: quem gostar pode seguir para Ponciá Vicêncio, Becos da Memória ou o romance Canção para Ninar Menino Grande.

Vale saber que vários contos tratam de violência — doméstica, urbana, policial — de forma direta, e que alguns são duros de ler. A recomendação é não ter pressa: um ou dois contos por vez, com tempo para que cada história assente.

Dúvidas Comuns dos Leitores

Olhos d'Água é romance ou livro de contos?

É um livro de contos. São quinze histórias independentes, que podem ser lidas em qualquer ordem, embora a sequência original crie ecos interessantes entre elas.

O que é escrevivência?

É o termo criado por Conceição Evaristo para a escrita que nasce da vivência, especialmente da experiência de mulheres negras, e que transforma memórias pessoais e coletivas em literatura.

Olhos d'Água cai no vestibular?

O livro e os contos da autora aparecem com frequência em listas de leitura e em provas, justamente por sua importância na literatura brasileira contemporânea. Vale conferir a lista do vestibular específico.

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