O Avesso da Pele, de Jeferson Tenório — A Carta de um Filho ao Pai Que a Polícia Matou
O Avesso da Pele, de Jeferson Tenório, Jabuti 2021: uma leitura sobre luto, racismo e memória, e o livro que tentaram tirar das escolas.
"Eu não queria apenas a sua ausência como legado. Eu queria um tipo de presença, ainda que dolorida e triste."
— Jeferson Tenório, O Avesso da Pele, "A pele"
Pedro escreve para o pai. Não uma carta para ser enviada — o pai, Henrique, está morto, assassinado numa abordagem policial —, mas uma longa conversa em segunda pessoa, em que o filho tenta reconstruir quem foi aquele homem a partir do que sobrou dele: roupas espalhadas pelo quarto, canetas sem tinta, provas de alunos, um alguidar com o Ogum que o pai dizia ser o único orixá capaz de lidar com os abismos. A frase acima, das primeiras páginas, resume o projeto do livro inteiro. A morte deixou uma ausência; Pedro quer outra coisa, uma presença que possa ser contada, ainda que doa. O Avesso da Pele é o resultado desse esforço, e um dos romances brasileiros mais importantes da última década.
Publicado pela Companhia das Letras em 2020, o livro venceu o Prêmio Jabuti de 2021 na categoria romance literário e foi traduzido para vários países. Em 2024, voltou ao noticiário quando secretarias de educação de três estados mandaram recolhê-lo das escolas — e as vendas dispararam.
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Do Que Fala O Avesso da Pele
Henrique era professor de literatura em escolas públicas de Porto Alegre, um homem negro que acreditava, até o fim, que os livros podiam fazer alguma coisa pelas pessoas. Depois que ele é morto pela polícia, o filho começa a recompor a vida do pai: a infância, a ansiedade que o acompanhava desde menino, o casamento com a mãe de Pedro, as humilhações cotidianas de ser abordado, vigiado e desconfiado, as pequenas vitórias numa sala de aula onde poucos acreditavam nele. O livro é dividido em partes que avançam e recuam no tempo, e a narrativa alterna a memória de Pedro com a imaginação do que o pai viveu e nunca contou.
A Pele e o Avesso
O título é uma chave de leitura. A pele é o que os outros veem — e, para Henrique, é o que define, antes de qualquer palavra, o modo como ele será tratado por policiais, vizinhos, colegas, alunos. O avesso é o que fica por dentro e quase ninguém vê: o medo, a ansiedade, o amor, a vontade de ser reconhecido por inteiro. O romance passa o tempo todo entre essas duas camadas, mostrando como o racismo não é só um episódio violento, mas uma presença constante que molda o corpo e a mente de quem o sofre.
Quem trabalha com saúde mental reconhece muito do que o livro descreve. A ansiedade de Henrique, que começa na infância e se transforma em náusea, tremor e alerta permanente, não é apresentada como fraqueza pessoal, mas como resposta a um mundo que o coloca o tempo todo sob suspeita. É uma das descrições mais precisas, na literatura brasileira recente, do custo psicológico de viver vigiado.
Escrever Para Reconstruir
A escolha de narrar em segunda pessoa, dirigindo-se ao pai, faz do livro um trabalho de luto em andamento. Pedro não sabe tudo; precisa imaginar, deduzir, inventar a partir dos objetos e das lembranças. E essa reconstrução não é apenas homenagem: inclui os defeitos do pai, as brigas, as fragilidades. O que o filho busca não é um herói, mas uma pessoa inteira — exatamente o que a morte violenta e o olhar racista tinham negado a Henrique.
O Livro Que Tentaram Tirar das Escolas
Em 2024, depois de uma polêmica iniciada nas redes sociais, as secretarias de educação do Paraná, de Goiás e de Mato Grosso do Sul ordenaram o recolhimento do livro das escolas públicas, alegando cenas de sexo e linguagem imprópria. A decisão foi tratada como censura por escritores, professores e pela editora, e acabou revista em parte dos estados. Ironicamente, o episódio levou o romance a muito mais leitores. Vale lembrar que o livro foi pensado para leitores adultos e de ensino médio, e que trata de violência, sexo e racismo com a franqueza que esses temas exigem.
Para Quem Esta Leitura Faz Sentido
O Avesso da Pele é para quem quer ler um dos romances centrais da literatura brasileira contemporânea, para quem se interessa por relações entre pais e filhos, luto e memória, e para quem quer entender o racismo a partir de dentro de uma vida. É uma leitura intensa, mas de prosa fluida, que se faz em poucos dias.
Dúvidas Comuns dos Leitores
O Avesso da Pele ganhou o Jabuti?
Sim. Venceu o Prêmio Jabuti de 2021 na categoria romance literário.
O Avesso da Pele é baseado em fatos reais?
É ficção, mas dialoga com situações reais e recorrentes no Brasil, como a violência policial contra homens negros e o cotidiano de professores da rede pública.
Por que O Avesso da Pele foi recolhido de escolas?
Em 2024, secretarias de educação de três estados alegaram cenas de sexo e linguagem imprópria. A medida foi criticada como censura e revista em parte dos estados.
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