A Odisseia pelo Olhar Junguiano — a Volta para Casa como Jornada de Individuação

A Odisseia lida com Jung: nekyia, anima, Polifemo, Penélope e o leito de oliveira como viagem de individuação. O que está no texto e o que é leitura.

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A Odisseia pelo Olhar Junguiano — a Volta para Casa como Jornada de Individuação

No canto V da Odisseia, quando Hermes chega à ilha de Calipso para ordenar que ela liberte o herói, Odisseu não está na gruta: está sentado na praia, olhando o mar e chorando, apesar de a ninfa lhe oferecer uma vida confortável e a imortalidade. É uma imagem curiosa para um herói: depois de anos de guerra e de monstros, o homem que sobreviveu a tudo está imóvel, de costas para o prazer, com o olhar pregado no horizonte. Para a psicologia analítica de C. G. Jung, cenas assim são o centro de qualquer leitura simbólica do poema, porque o que se mostra é uma travessia interior, em que a pessoa aceita perder o conforto para ser inteira. Este artigo propõe uma dessas leituras, a junguiana, e procura sempre separar o que está no texto de Homero do que é interpretação.

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O Que é Texto e o Que é Leitura

Antes de tudo, uma distinção honesta. Homero não escreveu sobre inconsciente, e Jung não pretendeu que os mitos "dissessem" o que sua psicologia diz. O que a leitura junguiana faz é tratar o poema como um mapa simbólico: encontros, descidas e retornos se tornam imagens de movimentos psíquicos que Jung descreveu como individuação, o processo pelo qual a pessoa vai se tornando um todo diferenciado, integrando partes de si que ficaram fora da consciência. O que está no texto são cenas e falas; o resto é um modo de ler, entre outros possíveis. Há leituras acadêmicas dessa linha, como o artigo de Carol Leader, "The Odyssey: a Jungian Perspective: Individuation and Meeting with the Archetypes of the Collective Unconscious" (British Journal of Psychotherapy, v. 25, 2009, p. 506–519), e outras tradições, como a psicanálise de linha freudiana, fariam perguntas diferentes ao mesmo poema, por exemplo sobre a ausência do pai na formação de Telêmaco.

A Nekyia: Descer para Poder Voltar

O momento mais fértil para a leitura de Jung é o canto XI. Seguindo o conselho de Circe, Odisseu atravessa o Oceano e chega ao limite do mundo dos mortos, faz um sacrifício para que as sombras se reúnam e conversa com elas, entre as quais o adivinho Tirésias, que lhe diz o que precisa para chegar a Ítaca. Jung tomou desse episódio o termo nekyia (a "consulta aos mortos") e o aplicou à descida voluntária ao inconsciente: uma introversão da consciência nas camadas mais profundas da psique. Ele insistia, e isto está registrado em seus comentadores, que a nekyia não é uma queda sem rumo no abismo, mas uma katabasis com sentido, cujo objetivo é o restabelecimento do homem inteiro. A imagem se liga ao que ele chamou de viagem marítima noturna, o mergulho do herói nas águas escuras, e o canto XI é lido como um modelo literário disso: o herói só segue em frente depois de ouvir os mortos, o que na linguagem junguiana equivale a escutar o que, em nós, ficou enterrado.

As Figuras Femininas: Circe, Calipso, Nausícaa e Penélope

Uma das chaves mais conhecidas da tradição junguiana é a anima, o nome que Jung dá à imagem do feminino na psique de um homem, que costuma se manifestar em figuras de fascínio ou de enigma. Na Odisseia, o poema oferece um catálogo de mulheres e deusas: Circe, que transforma os companheiros em porcos e depois lhe ensina o caminho para o Hades; Calipso, que o retém por anos numa ilha; a jovem Nausícaa, que o acolhe quando ele surge nu e coberto de sal; Penélope, que o espera. Leituras junguianas, como a de Leader, tendem a ler esses encontros como o confronto e a humanização de aspectos da psique de nível arquetípico, em vez de simples episódios de aventura. Como toda chave interpretativa, ela ilumina uns trechos e deixa outros na sombra: não se deve esquecer que, no poema, essas mulheres têm vontade e história próprias.

Polifemo e o Nome "Ninguém"

No canto IX, quando o ciclope pergunta seu nome, Odisseu responde que se chama "Ninguém" e, depois de cegar o monstro, escapa porque os outros ciclopes, ouvindo que "Ninguém" o feriu, não vêm em socorro. O texto faz dessa passagem um triunfo da astúcia. Uma leitura junguiana pode ver ali a máscara da persona, o papel social que o eu veste para circular pelo mundo, e o gesto seguinte como o momento em que o eu reaparece: ao gritar o próprio nome para o monstro que ficava para trás, o herói abandona o anonimato e atrai a ira de Poseidon, pai de Polifemo. É uma leitura possível, e não a única; o que há de seguro no texto é a ironia entre o nome escondido e o nome revelado, com as consequências que se arrastam pelo resto da viagem.

O Retorno: Mendigo e Leito

A chegada a Ítaca, no canto XIII, é narrada com um dado que a leitura simbólica valoriza: Atena transforma Odisseu em um mendigo envelhecido, e é nessa condição, despojado do rosto e da posição, que ele reencontra o filho, o porqueiro e finalmente a casa. Para a perspectiva de Jung, o herói só volta quando abre mão das aparências com que partiu. Penélope, por sua vez, o testa no canto XXIII com uma pergunta sobre o leito: ele foi construído em torno de uma oliveira enraizada, e só o marido poderia saber que a cama não pode ser movida. A tradição junguiana costuma chamar de coniunctio, termo que vem da alquimia que Jung estudou (por exemplo em Psicologia e Alquimia), a união dos opostos que fecha o processo; é uma metáfora, e ela funciona porque o poema termina na intimidade de um quarto, e não numa batalha.

Telêmaco e a Outra Metade da História

Os quatro primeiros cantos, a chamada Telemaquia, acompanham o filho que sai de casa à procura do pai, e a leitura de Leader destaca justamente esse amadurecimento de Telêmaco como contraponto ao percurso cultural de Odisseu. Vale lembrar o quanto o poema fala de herança e presença: o jovem só deixa de ser espectador da própria casa quando parte em busca de notícias. Num leitor que atravessa a meia-idade, essa dupla estrutura (o homem que volta e o filho que cresce) costuma tocar em perguntas parecidas sobre o que se carrega e o que se entrega.

Uma Lente: a Cena de Penélope e o Tear

Quem já assistiu a uma montagem teatral da Odisseia sabe como funciona a cena de Penélope tecendo de dia e desfazendo à noite o tecido que prometeu terminar antes de escolher um novo marido. No palco, o gesto repetitivo diz mais sobre espera do que qualquer fala, e o espectador sente o tempo dilatar. Esse gesto simples permite uma leitura simbólica: o movimento que parece parado pode ser um trabalho de resistência e de preservação do que importa, e é assim que muitos leitores junguianos veem Penélope.

Para Quem Esta Leitura Faz Sentido

A leitura junguiana serve a quem gosta de mitos, a estudantes de psicologia, a quem atravessa uma fase de retorno (a casa, a si mesmo, a uma relação) e a quem quer reler um clássico com uma pergunta nova. Não se trata de aplicar o mito à vida de ninguém, e sim de deixar que uma imagem antiga ajude a pensar.

Qual Edição Ler

Para esta leitura, a edição da Editora 34, tradução de Trajano Vieira, é uma escolha sólida: em verso, rigorosamente metrificada, com mapas, índice onomástico, posfácio e notas sobre métrica. O texto da edição de bolso é integral. Para comparar outras traduções, o Farol tem um guia dedicado.

Perguntas Frequentes

Jung escreveu sobre a Odisseia?

Jung usou o episódio da descida aos mortos (nekyia) como imagem para a descida ao inconsciente, mas a leitura completa do poema como individuação é obra de comentadores posteriores, e não de um livro dele sobre Homero.

A leitura junguiana é a única possível?

Não. É uma entre várias, e a graça de um clássico está justamente em aguentar muitas leituras. Vale ler primeiro o poema e só depois as interpretações.

Preciso conhecer Jung para acompanhar?

Não. Os termos principais (individuação, nekyia, anima, persona) são explicados aqui, e a leitura fica melhor se o poema for lido antes.

Para ler o poema antes das interpretações: A Odisseia (Editora 34), na Amazon →

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