Por Onde Começar a Ler Freud (e Qual Edição Comprar): Ordem de Leitura Comentada
Por onde começar a ler Freud: comece pelas Conferências Introdutórias (Companhia das Letras) e siga para A Interpretação dos Sonhos. Ordem e edições.
A melhor porta de entrada para Freud são as Conferências Introdutórias à Psicanálise, no volume 13 das Obras Completas da Companhia das Letras: o livro reúne as palestras que ele deu na Universidade de Viena e percorre, em três partes, os atos falhos, os sonhos e a teoria geral das neuroses, de modo que o leitor enxerga o conjunto da teoria antes de entrar em qualquer texto isolado. Dali o caminho mais seguro passa por A Interpretação dos Sonhos, pelos Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade, por Além do Princípio do Prazer e por O Mal-Estar na Civilização, nessa ordem. Para quem lê Freud pela primeira vez, a coleção da Companhia das Letras é a escolha mais tranquila, porque foi traduzida diretamente do alemão e cada volume é vendido separadamente, e não é preciso comprar a obra inteira para saber se a leitura rende.
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A Ordem de Leitura em Uma Tabela
| Etapa | Livro | Edição | Para quê |
|---|---|---|---|
| 1 | Conferências Introdutórias à Psicanálise | Companhia das Letras, Obras Completas vol. 13 (Sergio Tellaroli, 640 p.) | Panorama da teoria pelo próprio Freud |
| 2 | A Interpretação dos Sonhos | Companhia das Letras, vol. 4 (Paulo César de Souza, 736 p.) | O livro que funda o método |
| 3 | Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade | Companhia das Letras, vol. 6 (Paulo César de Souza, 408 p., com o caso Dora) | A sexualidade infantil e a teoria das pulsões |
| 4 | Além do Princípio do Prazer | Autêntica (bilíngue) ou L&PM Pocket (Renato Zwick, 160 p.) | A virada de 1920 |
| 5 | O Mal-Estar na Civilização | Penguin-Companhia (Paulo César de Souza, 96 p.) | Freud sobre cultura e sofrimento |
| Apoio | Freud: Uma Vida para o Nosso Tempo, de Peter Gay | Companhia das Letras, edição econômica (Denise Bottmann, 824 p.) | A vida e o contexto das ideias |
1. Conferências Introdutórias: o Freud que se Apresenta Sozinho
O volume 13 das Obras Completas reúne as conferências publicadas em 1916 e 1917 a partir da última série de palestras que Freud deu na Universidade de Viena, e a própria divisão do livro funciona como um roteiro de estudos: as conferências 1 a 4 tratam dos atos falhos, as de 5 a 15 tratam dos sonhos, e as de 16 a 28 formam a teoria geral das neuroses, passando por sintomas, resistência, repressão, vida sexual, angústia, narcisismo, transferência e terapia analítica. Quem começa por aqui ganha o vocabulário que os outros livros pressupõem, e ganha também a chance de ouvir Freud explicando as próprias ideias a um auditório, o que dá ao texto uma clareza que os escritos técnicos nem sempre têm. A edição tem 640 páginas, capa dura e tradução de Sergio Tellaroli: ver na Amazon.
2. A Interpretação dos Sonhos: o Livro Fundador
Publicado em 1900, é o livro mais famoso de Freud e o ponto em que a psicanálise ganha forma de método: a tese central é que o sonho realiza, de modo disfarçado, desejos reprimidos, muitas vezes de origem infantil, e o livro descreve o trabalho do sonho com mecanismos como a condensação e o deslocamento. São sete capítulos, e o último, mais teórico, costuma render mais depois de lidas as conferências sobre os sonhos, que condensam parte do argumento em linguagem mais direta. A edição da Companhia das Letras (volume 4, lançada em 2019) tem 736 páginas, capa dura e tradução de Paulo César de Souza: ver na Amazon.
3. Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade
Escrito em 1905, o livro examina as aberrações sexuais, a sexualidade infantil e as transformações da puberdade, e é nele que Freud sustenta que a vida sexual não começa na adolescência. É um texto que muita gente conhece só por citação, e vale lê-lo com a calma de quem sabe que se trata de um escrito de época, com os limites de época, mas que ajuda a entender por que a psicanálise foi tão polêmica. Na Companhia das Letras, ele integra o volume 6 das Obras Completas, junto com a análise fragmentária de uma histeria, o caso conhecido como "Dora", num total de 408 páginas e tradução de Paulo César de Souza: ver na Amazon.
4. Além do Princípio do Prazer: a Virada de 1920
Neste ensaio Freud revê a primazia do princípio do prazer na teoria e introduz conceitos como Eros e pulsão de morte, de modo que é o texto que mais se costuma citar quando se fala da segunda fase de sua obra. Há duas boas edições avulsas, para perfis diferentes de leitor. A da Autêntica, na coleção Obras Incompletas de Sigmund Freud, é uma edição crítica bilíngue, em português e alemão, com tradução de Maria Rita Salzano Moraes, 512 páginas e um dossiê com dicionário de autores e obras citados: serve a quem estuda e quer o texto original ao lado (ver na Amazon). A da L&PM Pocket, com tradução de Renato Zwick e prefácio de Tales Ab'Saber, tem 160 páginas e cabe na bolsa: serve a quem quer só ler (ver na Amazon). Na coleção da Companhia das Letras, o texto está no volume 14, junto com "O homem dos lobos" (ver na Amazon).
5. O Mal-Estar na Civilização
É o Freud que olha para fora do consultório: o livro examina as raízes do sofrimento humano e o conflito entre o indivíduo e a sociedade, argumentando que civilização e sexualidade estão sempre em tensão e que a repressão e a sublimação dos instintos, somadas ao trabalho, estão na base de muito adoecimento psíquico da era moderna. Lê-se bem depois dos textos anteriores e, por ser curto, funciona como fecho de uma primeira volta pela obra. A edição da Penguin-Companhia (coleção Grandes Ideias, 2011) tem 96 páginas e tradução de Paulo César de Souza: ver na Amazon.
Uma Lente: o Teatro de Édipo
Freud recorre ao teatro para falar do desejo: em A Interpretação dos Sonhos ele convoca Édipo Rei, de Sófocles, e Hamlet para mostrar como a ficção trabalha o desejo infantil. Quem já viu a tragédia de Sófocles encenada sabe que a plateia conhece o desfecho e, mesmo assim, é tomada pela revelação, e o argumento de Freud é que a força da peça nasce menos do enigma do que do reconhecimento: o espectador vê em cena algo que lhe pertence. Ler Freud ganha outra textura quando se tem essa cena em mente, e o Farol tem uma análise da tragédia para quem quiser ver o texto de Sófocles por inteiro, em Édipo Rei: A Tragédia de Um Homem Que Investiga o Próprio Crime.
Qual Edição das Obras de Freud?
Há três caminhos principais no Brasil, e a diferença mais importante entre eles é a língua de origem da tradução. A Companhia das Letras publica as Obras Completas em tradução direta do alemão, em ordem cronológica, com volumes vendidos separadamente; a editora fala em vinte volumes para a série, e a maior parte da tradução é de Paulo César de Souza. A Edição Standard Brasileira, da Imago, em 24 volumes sob direção de Jayme Salomão, foi traduzida da edição inglesa de James e Alix Strachey, ou seja, passa pelo inglês, e por décadas foi a edição de referência no mercado brasileiro, o que explica por que ainda aparece citada em tantas bibliografias. Já a Autêntica trabalha com edições críticas bilíngues na coleção Obras Incompletas, que não cobrem a obra inteira, mas permitem conferir o alemão. Para ler, a Companhia das Letras é o ponto de partida; para estudar um texto específico com rigor, as edições bilíngues da Autêntica ajudam; e a Imago continua útil como consulta quando uma bibliografia a cita pelo número de volume.
Um Guia para Não se Perder
Freud: Uma Vida para o Nosso Tempo, de Peter Gay, é a biografia que acompanha a vida de Freud e o ambiente intelectual em que as ideias nasceram, e funciona bem como companhia paralela à leitura dos textos. A edição econômica da Companhia das Letras (2012, 824 páginas, tradução de Denise Bottmann) é a mais acessível: ver na Amazon.
Perguntas Frequentes
Qual a melhor tradução de Freud em português?
Para quem começa, a da Companhia das Letras, porque parte do alemão e tem os volumes disponíveis separadamente. A Edição Standard Brasileira da Imago, traduzida a partir do inglês, tem valor histórico e ainda é muito citada, mas passa por uma língua intermediária; para estudar um texto específico, as edições bilíngues da Autêntica permitem conferir o original.
Preciso comprar as Obras Completas inteiras?
Não. Os volumes da Companhia das Letras são vendidos separados, e o caminho deste guia usa apenas alguns deles. Começar por um ou dois já mostra se a leitura rende.
Freud é difícil de ler?
Depende do livro. A Interpretação dos Sonhos é longo e tem um final teórico, e por isso as Conferências Introdutórias são um começo melhor; O Mal-Estar na Civilização, com 96 páginas, é curto e pode ser lido de uma vez.
Preciso ler Freud antes de Jung?
Não é obrigatório, mas ajuda, porque boa parte de Jung foi escrita em diálogo e em divergência com Freud. O Farol tem um guia de leitura de Jung para quem quiser seguir esse caminho.
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