Psicologia Preta: Por Onde Começar a Ler (Fanon, Neusa Santos Souza) e um Curso de Introdução
Por onde começar na psicologia preta: Tornar-se Negro (Neusa Santos Souza, Zahar) e Pele Negra, Máscaras Brancas (Fanon, Ubu), mais um curso introdutório.
Quem quer entrar no campo da psicologia preta, isto é, no estudo de como o racismo atravessa a formação da subjetividade de pessoas negras, encontra dois bons pontos de partida em português: Tornar-se Negro, de Neusa Santos Souza, na edição da Zahar de 2021, e Pele Negra, Máscaras Brancas, de Frantz Fanon, na tradução de Sebastião Nascimento publicada pela Ubu em 2020. O primeiro é um estudo pioneiro feito no Brasil, a partir de histórias de vida de pessoas negras em ascensão social; o segundo é a obra de 1952 em que um psiquiatra lê a experiência colonial com os instrumentos da psicanálise, da filosofia e da antropologia. Para quem prefere um caminho guiado, existe ainda o curso Introdução à Psicologia Preta, de Lucas Veiga, descrito mais abaixo.
Para começar pelo chão brasileiro. Ver Tornar-se Negro na Amazon →
Comparativo Rápido
| Obra | Autoria | Edição indicada | Páginas | Para quem é |
|---|---|---|---|---|
| Tornar-se Negro | Neusa Santos Souza | Zahar, 2021 (prefácios de Maria Lúcia da Silva e de Jurandir Freire Costa, com textos inéditos da autora) | 176 | Quem quer partir da experiência brasileira de identidade e ascensão social |
| Pele Negra, Máscaras Brancas | Frantz Fanon | Ubu, 2020 (tradução de Sebastião Nascimento, prefácio de Grada Kilomba, posfácio de Deivison Faustino) | 256 | Quem quer conhecer o texto que deu base a boa parte do debate sobre racismo e psiquismo |
Neusa Santos Souza e o Custo Emocional de Subir na Vida
Tornar-se Negro foi publicado originalmente em 1983, e a edição da Zahar o recoloca em circulação com um prefácio novo e com textos inéditos da autora, que era psiquiatra e psicanalista. O livro reúne dez histórias de vida de pessoas negras que contam as estratégias que usaram para ascender socialmente, e o que chama atenção na leitura é que a autora não se limita a registrar a conquista de posição: ela acompanha o preço psíquico dessa trajetória, que passa por sujeição, por negação e por um apagamento progressivo de identidades, culturas e corpos. Quem acompanha pessoas há algum tempo sabe que a pergunta "quem eu preciso parecer para ser aceito?" pesa mais do que parece, e o interesse do livro está em mostrar que, para essas pessoas, a resposta vinha, em boa parte, de fora; é uma leitura possível do que o livro registra, e vale confrontá-la com os relatos.
É por esse caminho que o livro dialoga com a clínica e com a vida comum ao mesmo tempo. Ele não propõe fórmula nem promete que a leitura resolva algo; ele oferece um vocabulário, e vocabulário é o que falta a muita gente para nomear uma experiência que até então só aparecia como incômodo difuso. A leitura funciona bem para quem trabalha com pessoas, para estudantes de psicologia e também para qualquer leitor interessado em entender por que a ascensão social, para uns, vem acompanhada de uma sensação de estar sempre fora do lugar.
Fanon e a Pele que o Outro Já Interpretou
Frantz Fanon nasceu na Martinica, formou-se em Medicina e especializou-se em Psiquiatria em Lyon, e publicou Pele Negra, Máscaras Brancas em 1952, a partir de seu trabalho de formação. O livro analisa a experiência de ser negro num mundo organizado por olhares brancos e descreve o que ele chama de epidermização da inferioridade, a maneira como uma ideia de inferioridade ligada à cor da pele é internalizada por quem a recebe de fora. A escrita mistura clínica, filosofia e literatura, e por isso a leitura rende mais com calma, sem pressa de fechar o argumento: é um texto que se deixa reler.
A edição da Ubu é uma boa escolha por reunir uma tradução atual e dois textos que situam o livro, o prefácio de Grada Kilomba e o posfácio de Deivison Faustino. Para o leitor que chega sem familiaridade com a psicanálise, vale começar pelo prefácio e pelo posfácio, que funcionam como mapa, e só depois entrar no corpo da obra.
Para ler o texto fundador do debate. Ver Pele Negra, Máscaras Brancas na Amazon →
Um Curso de Introdução: Introdução à Psicologia Preta
Quem prefere ouvir alguém organizar o terreno antes de enfrentar os livros pode olhar o curso Introdução à Psicologia Preta, de Lucas Veiga. Segundo a página do curso, Veiga é psicólogo e mestre em Psicologia pela Universidade Federal Fluminense, e pesquisa questões raciais, anticoloniais e a saúde mental da população negra. O curso tem como referência a Black Psychology, vertente da psicologia criada por psicólogos afro-americanos em meio à luta pelos direitos civis, no fim dos anos 1960 e 1970, e dialoga com autores como Frantz Fanon, Wade Nobles e a própria Neusa Santos Souza. Entre os conceitos que a página lista estão o paradigma ético, estético e político da clínica, a colonização e a descolonização do inconsciente, a subjetividade diaspórica e o aquilombamento.
Alguns dados práticos, todos tirados da página do curso na Hotmart: são três aulas gravadas, há certificado de conclusão e garantia de 7 dias, e o curso aparece com avaliação 5,0 a partir de 44 avaliações de alunos. O Farol não fez o curso, de modo que não há aqui opinião sobre o conteúdo das aulas, apenas a descrição do que a página informa. Vale lembrar também que um curso gravado é um espaço de estudo e de autoconhecimento, e não substitui o acompanhamento de um profissional para quem está lidando com sofrimento. Este é um link de afiliado: se você comprar por ele, o Farol recebe uma comissão, sem custo adicional para você.
Para quem quer uma introdução guiada antes ou junto dos livros. Ver o curso na Hotmart →
Uma Ordem de Leitura Possível
Uma sequência razoável, para quem está começando, é abrir com Tornar-se Negro, porque o texto parte de histórias de vida e traz o debate para um território que o leitor brasileiro reconhece com facilidade, e só depois chegar a Fanon, cuja linguagem é mais densa e se beneficia do repertório já construído. O curso pode entrar antes, como mapa, ou no meio, para reorganizar o que foi lido. Nenhuma dessas ordens é obrigatória, e a literatura brasileira também funciona como porta de entrada: obras como Quarto de Despejo, de Carolina Maria de Jesus, e os contos de Conceição Evaristo mostram, na forma de narrativa, parte do que os dois livros discutem em linguagem teórica.
Para Quem Esta Leitura Faz Sentido
Estes livros fazem sentido para estudantes e profissionais de psicologia, de educação e de saúde, para pessoas negras que querem nomear experiências que viveram e para pessoas brancas que querem entender o que o racismo faz com quem o sofre. Se o assunto toca em algo doloroso e recente, é razoável ler com companhia, ou conversar com um profissional de confiança em paralelo, porque são textos que mexem.
Perguntas Frequentes
Qual a melhor edição de Pele Negra, Máscaras Brancas em português?
A edição da Ubu (2020), com tradução de Sebastião Nascimento, prefácio de Grada Kilomba e posfácio de Deivison Faustino, é a que recomendamos por reunir tradução recente e textos de apoio ao leitor.
Por onde começar a estudar psicologia preta?
Uma opção é começar por Tornar-se Negro, de Neusa Santos Souza, e seguir para Fanon. Quem prefere uma introdução em aulas pode somar o curso de Lucas Veiga, descrito acima.
O que é a Black Psychology citada no curso?
Segundo a página do curso, é uma vertente da psicologia criada por psicólogos afro-americanos no fim dos anos 1960 e 1970, durante a luta pelos direitos civis, e serve de referência para a proposta do curso.
O curso Introdução à Psicologia Preta tem garantia?
Segundo a página do curso na Hotmart, há garantia de 7 dias. Confira as condições na própria página antes de comprar.
Para começar pelo chão brasileiro. Ver Tornar-se Negro na Amazon →