Qual a Melhor Edição de A República, de Platão? Traduções do Grego Comparadas
Qual a melhor tradução de A República, de Platão: Carlos Alberto Nunes (EDUFPA, bilíngue) ou Maria Helena da Rocha Pereira (Gulbenkian)? Comparativo.
A melhor edição de A República para quem lê em português do Brasil é a de Carlos Alberto Nunes, publicada pela EDUFPA na coleção Diálogos de Platão: é tradução direta do grego, e a edição atual (5ª, de 2023) é bilíngue, com o texto grego fixado por John Burnet ao lado do português e uma introdução do filósofo Benedito Nunes. Quem prefere um volume mais enxuto, com introdução e notas de uma helenista, encontra na tradução de Maria Helena da Rocha Pereira, da Fundação Calouste Gulbenkian, a versão mais citada em cursos universitários, embora em português de Portugal. A escolha importa mais do que parece, porque A República é um livro em que cada palavra do grego (justiça, alma, bem, ser) carrega decisões filosóficas, e uma tradução que não diz de que língua parte, ou que nem sequer informa quem traduziu, pode apagar essas decisões sem que o leitor perceba.
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Comparativo Rápido das Principais Edições
| Tradutor(a) | Editora | Formato | Indicação principal |
|---|---|---|---|
| Carlos Alberto Nunes | EDUFPA (5ª ed., 2023) | Bilíngue grego-português, 860 páginas | Estudo e leitura aprofundada, com introdução de Benedito Nunes |
| Carlos Alberto Nunes | EDUFPA (4ª ed., 2017) | 856 páginas | Mesma tradução, sem a revisão da edição mais recente |
| Maria Helena da Rocha Pereira | Fundação Calouste Gulbenkian (Portugal) | 516 páginas, introdução e notas | Cursos universitários; português europeu |
| Anna Lia Amaral de Prado | Martins Fontes (2006) | 419 páginas | Edição de uso corrente no Brasil; confira a nota do tradutor |
| Sem tradutor informado | Lafonte (2024), Camelot (2024) | Edições comerciais de 2024 | Evitar para estudo: a ficha não diz quem traduziu |
Carlos Alberto Nunes: a Tradução Direta e Bilíngue
Carlos Alberto Nunes traduziu para o português a obra completa de Platão, e a edição da EDUFPA, coordenada por Benedito Nunes e Victor Sales Pinheiro, vem agora revisada e com o texto grego de John Burnet em páginas paralelas. Isso tem um valor prático enorme para quem estuda: dá para conferir o termo grego em que se apoia uma passagem difícil, e o aparato da coleção permite acompanhar o argumento sem depender de comentários externos. A edição reúne 860 páginas e é, no Brasil, a opção de maior rigor para ler o diálogo inteiro. O preço acompanha o porte, e quem só quer conhecer o texto pode começar por uma edição menor, desde que a tradução seja identificada. Ver a 5ª edição na Amazon ou a 4ª edição, de 2017.
Maria Helena da Rocha Pereira: a Escolha dos Cursos de Filosofia
A tradução de Maria Helena da Rocha Pereira, helenista da Universidade de Coimbra, é publicada pela Fundação Calouste Gulbenkian, com introdução e notas dela, e aparece com frequência nas bibliografias de disciplinas de clássicos nas universidades brasileiras. A edição de 2010 (12ª) tem 516 páginas. O ponto a considerar é que o português é o de Portugal, com vocabulário e grafia próprios, o que incomoda alguns leitores e agrada a outros. Ver na Amazon.
E as Edições Mais Baratas?
Existe uma tradução de Anna Lia Amaral de Prado, publicada pela Martins Fontes em 2006, com 419 páginas e título original Politeia na ficha; é uma edição de circulação ampla no Brasil, mas a ficha que consultei não informa a língua de partida, e vale conferir a nota do tradutor antes de comprar. Ver na Amazon. Já as edições de 2024 das editoras Lafonte (capa dura) e Camelot não trazem tradutor nas fichas de venda, e uma tradução sem autoria identificada não oferece nenhuma garantia de fidelidade: para estudar ou citar, é melhor evitá-las.
O Que Esperar do Livro
A República é um diálogo em dez livros em que Sócrates e seus interlocutores partem de uma pergunta aparentemente simples, o que é a justiça e se ela compensa, e chegam a praticamente todos os temas da filosofia. O argumento central compara a alma com a cidade: assim como uma cidade justa tem classes que cumprem cada uma a sua função, a alma justa tem partes que se ordenam sob a razão. No caminho, Platão refuta o relativismo dos sofistas, critica o poder de sedução dos poetas e descreve como os regimes se degradam, da aristocracia à tirania, passando por uma democracia que, segundo o diálogo, tende à demagogia. O trecho mais famoso, a Alegoria da Caverna, está no Livro VII.
Uma Lente: a Caverna e a Sala de Cinema
Platão descreve prisioneiros que passaram a vida acorrentados, de frente para uma parede onde se projetam sombras de objetos carregados por trás deles, e que tomam essas sombras pela realidade. Quem já saiu de uma sala de cinema e piscou diante da luz do dia reconhece uma versão amena da cena: por duas horas as imagens na tela pareceram o mundo inteiro, e o retorno exige um pequeno reajuste. A comparação ajuda a perceber que a alegoria fala menos de ignorância do que do custo de se virar para a luz, já que o prisioneiro libertado sofre com o brilho e hesita em acreditar no que vê. O diálogo, aliás, trata o filósofo que desce de volta à caverna como alguém que corre o risco de não ser compreendido, o que dá à passagem uma dimensão política difícil de ignorar.
Para Quem Esta Leitura Faz Sentido
É um livro para estudantes de filosofia, ciência política, direito e psicologia, e para qualquer leitor disposto a acompanhar um argumento longo. Quem quer apenas a caverna pode ler o Livro VII isolado, mas perde o contexto que a explica. Convém lembrar que as posições do diálogo são de Platão (ou de seu Sócrates) e que, desde a Antiguidade, há leituras opostas sobre elas: para alguns comentadores o projeto da cidade ideal tem traços autoritários, para outros é uma reflexão sobre a educação e a formação da alma.
Perguntas Frequentes
Qual livro de A República tem a Alegoria da Caverna?
O Livro VII, que abre com a descrição dos prisioneiros acorrentados e segue com a subida à luz e o retorno.
Preciso ler A República inteira?
Para estudar, sim: o diálogo se constrói por camadas, e a caverna só ganha sentido depois da discussão sobre o bem e a educação. Para uma primeira aproximação, vale ler os livros I, VII e X.
A edição bilíngue é melhor para quem não lê grego?
Sim, mesmo sem ler grego, porque o texto em paralelo permite conferir termos-chave quando uma nota ou um comentário os cita, e a introdução e o aparato da edição ajudam a acompanhar o argumento.
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