Por Onde Começar a Ler Nietzsche: Ordem de Leitura Comentada e Qual Tradução Escolher

Por onde começar a ler Nietzsche: Crepúsculo dos Ídolos, Genealogia da Moral, Além do Bem e do Mal e Zaratustra, na tradução de Paulo César de Souza.

Compartilhar
Por Onde Começar a Ler Nietzsche: Ordem de Leitura Comentada e Qual Tradução Escolher

O melhor ponto de partida para ler Nietzsche é Crepúsculo dos Ídolos, na edição da Companhia das Letras com tradução, notas e posfácio de Paulo César de Souza: é um livro curto, de 1888, que a própria editora apresenta como introdução e síntese do pensamento do autor. Dali, a ordem mais segura segue por Genealogia da Moral, Além do Bem e do Mal, A Gaia Ciência e só então Assim Falou Zaratustra, o livro mais famoso e, para muitos leitores, o mais enganoso para quem chega sem preparo. Ecce Homo, a autobiografia filosófica, fica para o fim, quando já se conhece o que ele comenta. Uma observação vale para toda a lista: em Nietzsche, o estilo é parte do pensamento, e por isso a tradução importa; o ideal é ler uma versão feita diretamente do alemão e com o nome do tradutor na capa.

Para começar com um Nietzsche curto, direto e acessível. Ver preço na Amazon →

A Ordem de Leitura em Uma Tabela

Etapa Livro Edição Por quê
1 Crepúsculo dos Ídolos (1888) Companhia das Letras, trad. Paulo César de Souza Curto, resume temas centrais
2 Genealogia da Moral (1887) Companhia de Bolso, trad. Paulo César de Souza Três ensaios sobre a origem dos conceitos morais
3 Além do Bem e do Mal (1886) Companhia das Letras, trad. Paulo César de Souza Panorama da crítica à filosofia anterior
4 A Gaia Ciência (1882) Companhia de Bolso, trad. Paulo César de Souza Morte de Deus e eterno retorno em aforismos
5 Assim Falou Zaratustra (1883–85) Companhia de Bolso, trad. Paulo César de Souza A obra poética, com os temas todos
6 Ecce Homo (1888) Ver nota abaixo Nietzsche comentando a própria obra

1. Crepúsculo dos Ídolos: Filosofar com o Martelo

O subtítulo do livro, ou como se filosofa com o martelo, indica o gesto: Nietzsche passa em revista, em textos breves, as ideias que ele considera ídolos (a moral, a razão, a verdade tal como a filosofia a concebeu) e as golpeia para ver se soam ocas. Foi escrito e impresso em 1888, pouco antes de o filósofo perder a razão, e o próprio autor o descreveu como um aperitivo para abrir o apetite dos leitores. A edição da Companhia das Letras (160 páginas, tradução, notas e posfácio de Paulo César de Souza) é uma boa porta de entrada porque o posfácio situa o livro na obra. Ver na Amazon.

2. Genealogia da Moral: de Onde Vêm Nossos Conceitos Morais

A Genealogia da Moral foi escrita como complemento a Além do Bem e do Mal e reúne três ensaios que tratam, sob ângulos diversos, da origem de conceitos como bom e mau, culpa e má consciência, ideais ascéticos. Nietzsche interpreta a evolução da ética como uma história da crueldade e critica ideais como a compaixão, a igualdade e a crença na verdade. É um livro de argumentação mais contínua do que os aforismos, o que o torna mais fácil de seguir logo depois do Crepúsculo. A edição da Companhia de Bolso (2009, 176 páginas, tradução de Paulo César de Souza) traz ainda um ensaio que Nietzsche escreveu aos dezessete anos. Ver na Amazon.

3. Além do Bem e do Mal: a Crítica aos Filósofos

Publicado em 1886, o livro vem logo depois de Zaratustra e, segundo a própria nota de Nietzsche ao amigo Jacob Burckhardt, contém "as mesmas coisas", ditas agora sem a voz do profeta, de modo que serve de comentário ao livro mais famoso. A Companhia das Letras publica uma edição com tradução de Paulo César de Souza, em 272 páginas. Ver na Amazon.

4. A Gaia Ciência: Aforismos e a "Morte de Deus"

Com 383 seções, A Gaia Ciência traz algumas das discussões mais originais de Nietzsche sobre arte, moral, história, conhecimento, ilusão e verdade, e é nele que aparecem a proclamação da "morte de Deus" e a ideia do eterno retorno. A leitura é mais lenta e fragmentada, e funciona melhor em doses curtas. A edição da Companhia de Bolso (2012, 344 páginas) traz a tradução de Paulo César de Souza. Ver na Amazon.

5. Assim Falou Zaratustra: o Livro Mais Famoso, Deixado para Depois

Escrito entre 1883 e 1885, Assim Falou Zaratustra reúne filosofia, religião e literatura em um profeta que desce da montanha para pregar. É o livro que mais seduz e mais confunde, porque suas imagens (o além-do-homem, o eterno retorno, as três metamorfoses do espírito) só ganham contorno para quem já leu o que vem antes. Há duas edições da tradução de Souza: a Companhia de Bolso, de 2018, e a Companhia das Letras, de 2011, com 360 páginas.

Uma Lente: Richard Strauss e o Poema Sinfônico

Quem conhece a abertura de Assim Falou Zaratustra sem nunca ter lido o livro provavelmente a ouviu no cinema: é o poema sinfônico que Richard Strauss compôs em 1896, inspirado no texto de Nietzsche, e que ficou famoso pelo seu nascer do sol de metais e tímpanos. A música capta o que o livro tem de mais teatral, a ênfase profética, mas não o que tem de mais difícil, a ironia e a autocrítica que atravessam a prosa. Ouvir Strauss e ler Nietzsche em sequência ajuda a perceber a distância entre a imagem pública do Zaratustra e o texto, que é mais estranho e mais humano do que a pompa sugere.

O Que Não Ler Primeiro

A Vontade de Poder costuma aparecer em listas e bancas, mas não é um livro que Nietzsche tenha organizado: é uma coletânea póstuma de fragmentos, montada por sua irmã Elisabeth Förster-Nietzsche e por Peter Gast. Quem começa por ela lê um Nietzsche editado por terceiros, e a história dessa edição explica em parte por que o filósofo foi lido de forma tão distorcida durante o século XX. Cuidado semelhante vale para frases soltas em redes sociais: em Nietzsche, quase toda frase de efeito tem uma ironia ou uma reviravolta na linha seguinte.

Sobre a Tradução

Paulo César de Souza traduz Nietzsche do alemão (as fichas de suas edições trazem os títulos originais, como Zur Genealogie der Moral e Also sprach Zarathustra), com notas e posfácios, e suas versões são, no Brasil, as de maior circulação em editora de porte. Há outras traduções no mercado (Martin Claret, L&PM, Vozes), algumas boas, outras sem informação clara sobre a língua de partida; a regra prática é conferir na ficha técnica se o texto parte do alemão e quem traduziu. Para Ecce Homo, a única edição que localizei na pesquisa que fiz está na Martin Claret, com tradução de Pietro Nassetti; a de Paulo César de Souza, da Companhia das Letras, aparece citada em bibliografias, mas não confirmei se está disponível: confira antes de comprar. Ver a edição da Martin Claret na Amazon.

Apoio: um Guia Curto

Para quem quer um panorama antes de mergulhar, Nietzsche, de Gilles Deleuze (Edições 70, tradução de Alberto Campos, 107 páginas), é uma obra de síntese sobre o pensador e o seu pensamento. É uma edição portuguesa, vendida no Brasil por importação.

Perguntas Frequentes

Qual o primeiro livro de Nietzsche para ler?

Crepúsculo dos Ídolos, por ser curto e funcionar como síntese. Quem prefere um texto mais argumentado pode começar pela Genealogia da Moral.

Posso começar por Assim Falou Zaratustra?

Pode, mas muitos leitores se perdem. Ele é poético e simbólico, e rende mais depois de Além do Bem e do Mal e A Gaia Ciência.

Qual a melhor tradução de Nietzsche em português?

A de Paulo César de Souza, pela Companhia das Letras e Companhia de Bolso, é a mais indicada para o leitor em geral: parte do alemão, traz notas e é fácil de achar.

Para dar o primeiro passo: Crepúsculo dos Ídolos, na Amazon →

Leia também