A Angústia na Filosofia: Kierkegaard, Heidegger e Sartre — Quais Livros Ler
O que é a angústia para Kierkegaard, Heidegger e Sartre e quais livros ler: O Conceito de Angústia, Ser e Tempo, O Existencialismo é um Humanismo.
Para a filosofia existencial, a angústia não é apenas um mal-estar a ser curado: é uma experiência que diz algo sobre o que somos. Três pensadores a trataram de modo decisivo, e a ordem de leitura mais proveitosa vai de um a outro. Søren Kierkegaard (1813–1855) a descreve em O Conceito de Angústia, de 1844, como a vertigem da liberdade diante das próprias possibilidades; Martin Heidegger (1889–1976) a retoma em Ser e Tempo, de 1927, como a disposição que nos coloca diante do mundo e da finitude; Jean-Paul Sartre (1905–1980) a trata como o preço de assumir a liberdade em O Ser e o Nada e em O Existencialismo É um Humanismo. Para o leitor que chega agora, os livros mais acessíveis são a conferência de Sartre e o texto de Kierkegaard na tradução da Vozes; Ser e Tempo, denso e técnico, fica para depois.
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Antes de Tudo: Angústia Não é Medo
Os três autores insistem numa distinção que ajuda a ler qualquer um deles: o medo tem objeto, e a angústia não. Temos medo de um cão, de uma prova, de uma doença, e o medo aponta para algo que podemos enfrentar ou evitar; a angústia, ao contrário, não tem um "diante de quê" que se possa apontar, e por isso se apresenta como um aperto difuso, sem causa clara. Essa diferença é a chave de Heidegger e reaparece em Kierkegaard e em Sartre. Convém também separar a angústia filosófica de um quadro clínico de ansiedade: o texto filosófico oferece uma interpretação do que significa angustiar-se, e não substitui avaliação ou tratamento. Se o sofrimento está pesando demais, procure um psicólogo ou um médico; e, havendo pensamentos de acabar com a própria vida, o CVV atende pelo 188, gratuitamente, a qualquer hora (cvv.org.br).
Kierkegaard: a Vertigem da Liberdade
Em O Conceito de Angústia, publicado sob o pseudônimo de Vigilius Haufniensis, Kierkegaard esclarece psicologicamente a angústia usando a figura de Adão e refletindo sobre a dialética da responsabilidade. Sua imagem mais citada é a de quem olha para um precipício: a vertigem nasce tanto do abismo quanto do olhar, e a angústia, nesse sentido, é a vertigem da liberdade, o momento em que a pessoa percebe a amplitude das suas possibilidades e hesita diante delas. O contexto é religioso (a angústia se liga ao pecado, à fé e à liberdade), mas a descrição psicológica é tão precisa que foi apropriada por leituras muito diferentes. A edição da Vozes (2ª ed., 2010, 184 páginas) tem tradução de Álvaro Luiz Montenegro Valls, e a ficha traz o título original dinamarquês, Begrebet Angest. Há outra edição no mercado, da Hemus, cuja ficha traz o título em alemão (Der Begriff Angst), o que sugere uma tradução que não parte do dinamarquês: se importa ler Kierkegaard na língua dele, a da Vozes é a mais segura. Ver a edição da Vozes na Amazon.
Heidegger: a Angústia como Abertura ao Mundo e à Finitude
Em Ser e Tempo (1927), Heidegger dá à angústia um sentido ontológico, em vez de religioso: ela é uma disposição afetiva fundamental, a que o ser humano (o Dasein, o "ser-aí") se vê diante do mundo como tal e da própria possibilidade de ser, o que inclui a finitude. Enquanto o medo se refere a algo dentro do mundo, a angústia faz com que o mundo todo perca a familiaridade, e é nessa suspensão que a pessoa se descobre como alguém que precisa assumir a própria existência. Heidegger não lia dinamarquês e conheceu Kierkegaard por traduções alemãs, o que explica em parte por que os dois autores usam a palavra de modo próximo, mas com propósitos distintos. A obra é densa e técnica; a edição da Vozes (10ª ed., 2015, 600 páginas) tem tradução de Márcia Sá Cavalcante Schuback, posfácio de Emmanuel Carneiro Leão e glossário alemão-português. Ver na Amazon. Vale lembrar que Ser e Tempo é a base da daseinsanálise, abordagem clínica de que Medard Boss é uma das referências, e que desse caminho vem a leitura da angústia como algo a ser compreendido, e não só aliviado.
Sartre: a Angústia de Escolher
Em Sartre, a angústia é o sentimento de quem assume a própria liberdade. Na conferência O Existencialismo É um Humanismo (29 de outubro de 1945), ele a associa ao fato de que, ao escolher, o indivíduo escolhe também uma imagem do que o ser humano deve ser; ao lado dela vêm o abandono (a ausência de um Deus que garanta valores) e o desespero (a necessidade de contar apenas com o que depende de nós). Em O Ser e o Nada (1943), a angústia aparece como a consciência da liberdade diante do futuro e de si mesmo, e o exemplo do caminho à beira de um precipício, em que o medo de cair se mistura com o receio de se lançar, lembra explicitamente a vertigem de Kierkegaard. A conferência está na Vozes (88 páginas, tradução de João Batista Kreuch). Ver na Amazon. Para o tratado, há O Ser e o Nada, também da Vozes, tradução de Paulo Perdigão. Ver na Amazon.
Uma Lente: O Grito, de Edvard Munch
Poucas imagens da arte ocidental resumem a angústia tão bem quanto O Grito, que Munch pintou em 1893: uma figura de rosto deformado, mãos junto ao rosto, numa ponte sob um céu em ondas vermelhas, enquanto duas pessoas caminham ao fundo, indiferentes. Nenhum perigo identificável ameaça a figura, e é precisamente isso que torna a cena angustiante. Quem olha a pintura depois de ler Heidegger tende a notar o que ele descreve: o mundo continua ali, mas deixou de oferecer abrigo. A leitura é uma interpretação possível, e não uma intenção documentada do pintor.
Uma Ordem de Leitura
- O Existencialismo É um Humanismo, de Sartre (88 páginas): a conferência, em linguagem falada.
- O Conceito de Angústia, de Kierkegaard (Vozes): curto, mas exige atenção a seu vocabulário religioso.
- A Doença para a Morte, de Kierkegaard (Vozes, 2022, tradução de Jonas Roos): obra da maturidade que aprofunda a análise do desespero. Ver na Amazon.
- Ser e Tempo, de Heidegger: o texto fundador, para quem já tem o vocabulário.
- O Ser e o Nada, de Sartre: o tratado, depois de tudo.
Para Quem Esta Leitura Faz Sentido
É leitura para estudantes de filosofia e psicologia, para quem se interessa por fenomenologia existencial e para quem sente que a angústia que o acompanha merece ser entendida, e não só combatida. Os três autores não oferecem consolo fácil: o que oferecem é um vocabulário preciso para uma experiência que costuma ser vivida sem nome.
Perguntas Frequentes
Qual a diferença entre angústia e ansiedade?
Na filosofia existencial, a angústia é uma experiência ligada à liberdade e à finitude, sem objeto determinado. "Ansiedade" é o termo usado em contextos clínicos para quadros de sofrimento que podem exigir tratamento; as duas palavras se sobrepõem em parte, mas não são sinônimas.
Por qual autor começar?
Por Sartre, com a conferência de 1945, ou por Kierkegaard, em O Conceito de Angústia. Heidegger fica para quem já tem repertório.
A angústia é um problema a ser resolvido?
Para esses autores, é antes um sinal: de liberdade, de finitude, de escolha. Isso não significa que o sofrimento intenso deva ser suportado sozinho.
Para ler a angústia na fonte: O Conceito de Angústia (Vozes), na Amazon →