Conceitos de Sartre Explicados: Liberdade, Má-Fé, Angústia, o Olhar do Outro e Mais

Os principais conceitos de Sartre explicados: existência e essência, liberdade, angústia, má-fé, olhar do outro e náusea, com o livro onde cada um aparece.

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Conceitos de Sartre Explicados: Liberdade, Má-Fé, Angústia, o Olhar do Outro e Mais

Os conceitos que fazem de Jean-Paul Sartre (1905–1980) o filósofo mais lido do existencialismo são seis: a existência que precede a essência, a liberdade com a responsabilidade que ela traz, a trinca angústia-abandono-desespero, a má-fé, o olhar do outro e a náusea diante da contingência. A melhor porta de entrada é a conferência O Existencialismo É um Humanismo, que Sartre proferiu em Paris em 29 de outubro de 1945 para defender o existencialismo das críticas que recebia, e que a Vozes publica em 88 páginas, com tradução de João Batista Kreuch. É um texto curto, falado, escrito para ser entendido, e dele partem os conceitos que este guia explica: definição fiel ao autor, onde aparece, um exemplo da vida comum e o livro para aprofundar.

Para quem está começando em Sartre. Ver O Existencialismo É um Humanismo na Amazon →

Os Seis Conceitos em Uma Tabela

Conceito Onde aparece Livro para aprofundar
A existência precede a essência O Existencialismo É um Humanismo (1945) Vozes, trad. João Batista Kreuch
Liberdade e responsabilidade Conferência de 1945 e O Ser e o Nada (1943) O Ser e o Nada
Angústia, abandono, desespero Conferência de 1945 O Existencialismo É um Humanismo
Má-fé O Ser e o Nada O Ser e o Nada
O olhar do outro O Ser e o Nada O Ser e o Nada
Náusea e contingência A Náusea (1938) Nova Fronteira

1. A Existência Precede a Essência

É a tese que resume o existencialismo sartriano. Sartre contrasta o objeto fabricado, como um cortador de papel, cuja essência (a ideia de para que serve e como se faz) existe antes de ele existir, com o ser humano, que, na ausência de um projetista divino, primeiro existe e só depois se define pelo que faz de si. Não há uma natureza humana prévia que diga quem devemos ser. A consequência prática é incômoda e libertadora ao mesmo tempo: ninguém pode atribuir a quem é a uma essência, a um temperamento ou a um destino. Na vida comum, a ideia aparece em frases como "eu sou assim", que Sartre convidaria a reexaminar: o "assim" é o resultado de escolhas que repetimos, e não uma característica fixa.

2. Liberdade e Responsabilidade

Para Sartre, o ser humano está condenado a ser livre: condenado porque não escolheu existir, e livre porque, uma vez lançado no mundo, é responsável por tudo o que faz, sem poder transferir essa responsabilidade a Deus, à natureza ou à hereditariedade. A liberdade, no entanto, não é um poder ilimitado. Ela se exerce numa situação, com um corpo, uma história e circunstâncias que não escolhemos, e consiste em escolher o que fazer com elas. Um exemplo cotidiano: a pessoa que diz "não tive escolha" diante de um emprego que odeia pode estar descrevendo restrições reais, mas, para Sartre, mesmo diante delas há sempre a escolha de como responder, e é isso que faz de cada decisão um compromisso. A passagem mais completa está em O Ser e o Nada (1943), publicado pela Vozes com tradução de Paulo Perdigão. Ver na Amazon.

3. Angústia, Abandono e Desespero

Na conferência de 1945, Sartre usa três palavras para descrever o que sente quem assume sua liberdade. A angústia surge ao perceber que, ao escolher, escolho não apenas por mim, mas de certo modo por todos, porque tomo uma imagem do que o ser humano deve ser. O abandono nomeia a ausência de um Deus que garanta valores prontos: estamos sós, sem desculpas. O desespero é o reconhecimento de que só podemos contar com o que depende da nossa vontade, sem esperar que o mundo ajuste os acontecimentos aos nossos planos. Na vida comum, a angústia é o aperto que acompanha decisões que parecem definir uma vida, como mudar de cidade, ter ou não um filho, deixar uma carreira. Para Sartre ela não é patologia a ser eliminada, e sim o sinal de que levamos a liberdade a sério. É importante, porém, separar a angústia filosófica de um quadro de sofrimento clínico: este merece cuidado profissional.

4. Má-Fé

A má-fé é a mentira que contamos a nós mesmos para fugir da liberdade. Em O Ser e o Nada, Sartre dá o exemplo do garçom de café que se move com uma precisão ligeiramente excessiva, como quem representa o papel de garçom, e se identifica por inteiro com a função, como se fosse apenas isso. O erro está em tratar-se como coisa, em negar que se pode escolher outra vida. A má-fé tem duas faces: a de quem se reduz ao que é (sou o meu cargo, o meu diagnóstico, o meu passado) e a de quem se refugia numa possibilidade que nunca realiza (eu poderia ser, mas). Na vida comum, aparece sempre que alguém diz "é assim que as coisas são" para não decidir. O conceito é desenvolvido em O Ser e o Nada. Ver na Amazon.

5. O Olhar do Outro

Em O Ser e o Nada, Sartre descreve a experiência de ser visto: quem espia por uma fechadura se sente senhor da cena até ouvir passos atrás de si, e nesse instante percebe que é objeto do olhar de alguém, julgado, fixado numa imagem que não controla. A vergonha, para ele, é a revelação do outro como aquele que me faz existir como objeto. O conceito explica por que o olhar alheio pode ser tão paralisante e por que muitas relações viram disputa de quem fixa quem. Na vida comum, é o que sentimos ao nos descobrir observados num momento de descuido, ou ao perceber que alguém nos "resumiu" numa frase. A ideia dialoga com a peça Entre Quatro Paredes (1944), em que três personagens, trancados numa sala, se tornam os juízes uns dos outros.

6. Náusea e Contingência

A Náusea (1938) é o primeiro romance de Sartre. O protagonista, Antoine Roquentin, é um intelectual pequeno-burguês que, em um diário, catalogando objetos e sensações, descobre horrorizado a ausência de sentido da vida. A náusea é a sensação física que acompanha a percepção de que as coisas existem sem necessidade, sem razão que as justifique: a contingência. Na vida comum, o conceito corresponde ao estranhamento súbito que às vezes toma conta de uma palavra repetida demais ou de um lugar familiar, como se o mundo mostrasse a sua gratuidade. A edição da Nova Fronteira (25ª, 2019, 204 páginas) traz prefácio de Caio Liudvik; a ficha que consultei não informa o tradutor, e vale conferir. Ver na Amazon.

Uma Lente: o Garçom como Ator

A cena do garçom de café é, no fundo, uma cena de teatro. Quem trabalha em sala de espetáculo sabe a diferença entre um ator que representa um garçom e um garçom que passa a vida a representar um garçom: o primeiro sabe que está num papel, o segundo esqueceu. Sartre foi também dramaturgo, e talvez por isso sua descrição da má-fé tenha tanto de dramaturgia: gestos exagerados, voz modulada, um papel assumido com tal fervor que apaga quem o veste.

Por Onde Começar a Ler Sartre

A ordem mais acessível é: O Existencialismo É um Humanismo (88 páginas), depois A Náusea, e só então O Ser e o Nada, que é um tratado de ontologia, extenso e técnico. Para um guia de apoio, Jean-Paul Sartre: Conceitos Fundamentais (Vozes, 2020, 344 páginas, tradução de Bruno Gambarotto) reúne acadêmicos que examinam os conceitos ao longo da carreira de Sartre. Ver na Amazon.

Perguntas Frequentes

O que significa "a existência precede a essência"?

Que o ser humano não nasce com uma natureza que defina quem ele deve ser: primeiro existe, depois se constrói pelas escolhas que faz.

Sartre defende que podemos fazer qualquer coisa?

Não. A liberdade sartriana opera dentro de uma situação (corpo, história, circunstâncias), e vem acompanhada de responsabilidade, justamente por isso causa angústia.

Preciso ler O Ser e o Nada para entender Sartre?

Não para uma primeira compreensão. A conferência de 1945 e A Náusea dão a base, e o tratado fica para quem quer aprofundar.

Para ler Sartre direto da fonte: O Existencialismo É um Humanismo, na Amazon →

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