A Morte É um Dia que Vale a Pena Viver — O Livro de Ana Claudia Quintana Arantes para Quem Precisa Falar de Perda e Finitude

Resenha de A Morte É um Dia que Vale a Pena Viver, de Ana Claudia Quintana Arantes (Sextante): o que o livro oferece, para quem serve e quando esperar.

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A Morte É um Dia que Vale a Pena Viver — O Livro de Ana Claudia Quintana Arantes para Quem Precisa Falar de Perda e Finitude

Se você chegou até aqui procurando um livro sobre morte, é possível que esteja no meio de uma perda, ou perto de alguém que está, ou que a pergunta tenha simplesmente aparecido numa madrugada qualquer, sem aviso, como costuma acontecer. Esse é o território de A Morte É um Dia que Vale a Pena Viver, de Ana Claudia Quintana Arantes, médica geriatra e especialista em cuidados paliativos, publicado primeiro pela Casa da Palavra, em 2016, e depois pela Sextante, que o relançou com o subtítulo "e um excelente motivo para se buscar um novo olhar para a vida". É um livro para ser lido devagar, em pequenas doses, por quem aceita que falar de morte é também um jeito de falar da vida que ainda se tem.

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Quem é a Autora e Por Que Ela Fala com Autoridade

Ana Claudia Quintana Arantes formou-se pela USP, fez residência em geriatria e gerontologia no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP e se especializou em cuidados paliativos pelo Instituto Pallium e pela Universidade de Oxford. É presidente da Associação Casa do Cuidar, que forma profissionais de saúde em cuidado paliativo, e acompanha há mais de vinte anos pessoas gravemente doentes e suas famílias. A frase que dá título ao livro nasceu no encerramento de uma palestra TEDx de 2012 que se espalhou pela internet, e o livro surgiu depois, como desdobramento daquilo que tanta gente quis ouvir. Essa origem importa porque explica o tom: não é o texto de quem estudou a morte de longe, e sim de quem passou boa parte da vida ao lado dela, e que nesse convívio concluiu que a pergunta grande não é como se morre, mas como se vive sabendo que vai acabar.

O Que o Livro Oferece

O fio condutor, segundo a própria apresentação da editora, é a ideia de que a grande questão da morte é, no fundo, a vida: o que fazemos com o tempo, com as relações, com aquilo que adiamos dizer. Arantes convida o leitor a construir vínculos saudáveis e a cuidar de si com a mesma dedicação que costuma reservar a parentes e amigos, e faz isso numa linguagem simples, sem jargão médico, a partir de uma prática que a coloca todos os dias diante de famílias na hora mais difícil. Quem acompanha pessoas em luto sabe como é raro encontrar alguém que fale de morte sem solenidade nem eufemismo, e é justamente essa mistura de franqueza e ternura que o livro tem de mais valioso. Ele não oferece um método nem promete que a dor diminua num prazo; oferece companhia e um vocabulário para o que muitos de nós nunca aprenderam a dizer.

O que ele não oferece também merece ser dito com honestidade. Não é um tratado sobre luto, não substitui acompanhamento psicológico e não foi escrito para dar conta de lutas específicas, como a perda de um filho ou uma morte por suicídio, que pedem leituras e cuidados próprios. É um livro de reflexão, de leitura leve e de ritmo curto, com 192 páginas na edição da Sextante.

Uma Lente: Viver (Ikiru), de Akira Kurosawa

Há um filme que conversa de perto com esse livro. Em Ikiru (1952), de Akira Kurosawa, um burocrata de meia-idade, Kanji Watanabe, descobre que tem pouco tempo de vida e percebe que passou décadas carimbando papéis sem viver de fato, e a partir daí decide usar o que lhe resta para fazer algo que importe: batalha para que um terreno abandonado vire um parquinho para crianças. O título japonês significa "viver", e o filme inteiro gira em torno do mesmo deslocamento que Arantes propõe, o de que a consciência da finitude não precisa paralisar e pode, ao contrário, devolver à vida o que a rotina havia apagado. Quem assiste e depois lê o livro (ou o inverso) costuma perceber que os dois falam menos da morte do que da qualidade do tempo que a antecede.

Para Quem Este Livro Faz Sentido (e Para Quem Talvez Ainda Não)

Ele serve bem a quem está em luto já assentado, a quem cuida de alguém idoso ou doente, a profissionais de saúde e a quem simplesmente sente que precisa rever prioridades depois de um susto. Também funciona como presente delicado para alguém que atravessa uma fase de perdas, desde que seja entregue sem cobrança de leitura. Se a perda é muito recente, talvez ainda não seja a hora: nas primeiras semanas, é comum que a atenção não sustente nenhum texto, e forçar a leitura costuma gerar mais culpa do que alívio. Nesse caso, guarde o livro e volte quando o corpo pedir, e mantenha por perto pessoas que possam ouvir. Se o sofrimento estiver intenso demais para ser carregado sozinho, procure um psicólogo ou um médico; e, se surgirem pensamentos de acabar com a própria vida, ligue para o CVV pelo 188 (gratuito, 24 horas) ou acesse cvv.org.br.

Qual Edição Escolher

A edição regular da Sextante, com 192 páginas, é a escolha mais direta e a que está disponível com mais facilidade. Existe ainda uma edição especial, que a editora apresenta como revista e ampliada, com ilustrações e poemas da autora e um capítulo novo: ver a edição especial na Amazon. Para uma primeira leitura, qualquer uma serve; a especial atrai mais quem já conhece o livro ou procura algo para presentear.

Perguntas Frequentes

A Morte É um Dia que Vale a Pena Viver é um livro religioso?

Não se apresenta como tal. A autora é médica e fala a partir da prática do cuidado paliativo, e o tom é de acolhimento mais do que de doutrina; cada leitor poderá, claro, ler com a própria fé ou sem ela.

Serve para quem acabou de perder alguém?

Depende do momento. Nas primeiras semanas muita gente não consegue ler, e tudo bem. Quando a leitura voltar a ser possível, o livro pode ajudar a dar nome ao que se sente, mas ele não substitui o apoio de pessoas próximas e, se necessário, de um profissional.

Quanto tempo leva para ler?

São 192 páginas de linguagem simples; uma semana de leitura calma costuma bastar, e muitos leitores preferem ler um trecho por dia.

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