Em Busca de Sentido, de Viktor Frankl — O Que o Livro Diz, Para Quem Ele Serve e Qual Edição Ler
Resenha de Em Busca de Sentido, de Viktor Frankl (Vozes): o relato do campo de concentração, a logoterapia, para quem serve e qual edição ler.
Em Busca de Sentido é o livro que muita gente procura quando a vida perde o chão e as explicações de sempre deixam de funcionar: a perda de alguém, o fim de um projeto, a sensação de estar cumprindo tarefas sem saber para quê. Viktor Frankl, psiquiatra de Viena, escreveu esse relato depois de passar três anos em campos de concentração nazistas, e o publicou em alemão em 1946 com um título bem mais seco que o brasileiro: Um Psicólogo Vive o Campo de Concentração. No Brasil o livro sai pela Vozes, com tradução de Walter O. Schlupp e Carlos C. Aveline, e é uma leitura curta (perto de 200 páginas) que se faz em poucos dias, embora continue trabalhando em quem lê muito depois de fechado.
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O Homem Que Observou a Si Mesmo no Pior Lugar Possível
Frankl foi deportado com a família em 1942 e passou por Theresienstadt, Auschwitz e por campos ligados a Dachau; a mulher, os pais e o irmão morreram, e ele saiu vivo em 1945. A primeira parte do livro, "Experiências num campo de concentração", conta esse tempo sem retórica de vítima nem de herói, num tom que lembra o de um observador que ainda não sabe se sairá vivo para contar. Ele descreve as etapas pelas quais passa quem é aprisionado, o choque da chegada, a apatia que funciona como casca de proteção e a estranheza, depois da libertação, de voltar a uma vida que já não se encaixa. O que prende o leitor é a atenção minuciosa a pequenas decisões: quem repartia o pouco que tinha, quem consolava, quem se entregava. Segundo relatos biográficos, o texto foi ditado em cerca de nove dias, e talvez por isso conserve uma urgência que livros mais bem acabados raramente têm.
A Última das Liberdades e a Logoterapia
Dessa observação nasce a ideia que o tornou conhecido: mesmo quando tudo foi tirado de uma pessoa, resta a possibilidade de escolher a atitude diante do que acontece. Na segunda parte do livro, Frankl apresenta a logoterapia, a abordagem que desenvolveu a partir da convicção de que a força motivadora mais profunda do ser humano é a busca de sentido, mais do que o prazer ou o poder. Em termos simples, ele propõe que o sentido se encontra de três maneiras: naquilo que fazemos e criamos, naquilo que vivemos com os outros e com o mundo (o amor, a beleza) e na postura que assumimos diante de um sofrimento que não podemos evitar. O próprio Frankl faz questão de dizer que o sofrimento não é necessário para encontrar sentido; quando o sofrimento é inevitável, porém, ainda se pode decidir o que fazer com ele, e é essa margem de escolha que o livro defende.
Uma Lente: o Riso de A Vida É Bela
Quem já assistiu a A Vida É Bela (1997), de Roberto Benigni, talvez reconheça uma intuição vizinha: o pai que transforma o horror num jogo para que o filho atravesse o campo sem perder a infância. Frankl também escreve sobre o humor como uma das armas da alma, a capacidade de se distanciar da própria situação por alguns segundos, e conta que ele e um companheiro se obrigavam a inventar uma história engraçada por dia. A comparação ajuda a entender o que o livro não está dizendo. Ninguém ali afirma que o sofrimento tem um propósito escondido nem que a atitude certa apaga a dor; o que se afirma é que existe uma pequena zona de liberdade interior que a pessoa pode ocupar, e que ocupá-la é uma forma de dignidade.
O Que o Livro Oferece e o Que Ele Não Oferece
É um livro que dá palavras e uma direção de pensamento, e não um tratamento. A segunda parte, sobre a logoterapia, é uma apresentação resumida e feita para o leitor comum; quem deseja aprofundar a técnica precisará de outros títulos do autor. Também convém ler com cuidado a ideia de que sempre há sentido: para quem está em luto recente ou em depressão grave, a frase pode soar como cobrança, e nesse caso o livro talvez peça mais tempo ou companhia. A narrativa inclui cenas de violência, fome e morte, descritas sem exagero, mas com peso.
Para Quem Esta Leitura Faz Sentido
Serve a quem atravessa uma perda ou uma mudança de rumo, a quem se sente vazio apesar de uma vida aparentemente em ordem, a estudantes e profissionais da saúde que querem conhecer a origem da logoterapia e a leitores interessados em história do século XX. Para quem está no meio de uma crise aguda, o primeiro passo é conversar com alguém, e a leitura pode vir depois, como companhia. Se houver pensamentos de acabar com a própria vida, o CVV atende pelo 188, gratuitamente e a qualquer hora (cvv.org.br).
Qual Edição Escolher
A edição de referência no Brasil é a da Vozes, com tradução de Walter O. Schlupp e Carlos C. Aveline, que está na casa das sessenta edições e é a mais encontrada. Existe ainda uma edição para jovens leitores, pela Auster, que reúne o relato e um resumo da logoterapia; para a primeira leitura de um adulto, a da Vozes basta. Confira sempre a ficha catalográfica do exemplar: a numeração da edição muda a cada tiragem, mas o conteúdo é o mesmo.
Perguntas Frequentes
Em Busca de Sentido é um livro de autoajuda?
Ele costuma ser vendido nessa prateleira, mas nasce como testemunho e como apresentação de uma abordagem psicoterápica. Não traz receitas; propõe uma pergunta (qual é o sentido que a vida espera de mim agora?) e deixa a resposta com o leitor.
O que é logoterapia?
É a abordagem criada por Viktor Frankl que parte da busca de sentido como motivação central do ser humano. O livro a apresenta na segunda parte, em linguagem acessível.
Preciso saber algo sobre psicologia para ler?
Não. A primeira parte é um relato direto, e a segunda explica os conceitos de que precisa.
Vale ler se estou de luto?
Pode ajudar, desde que no seu ritmo. Se o luto for muito recente, vale pular a segunda parte por enquanto e voltar a ela depois.
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