Mulheres que Correm com os Lobos, de Clarissa Pinkola Estés — O Que É a Mulher Selvagem e Por Onde Começar a Ler
Resenha de Mulheres que Correm com os Lobos, de Clarissa Pinkola Estés (Rocco, trad. Waldéa Barcellos): a Mulher Selvagem, os contos e para quem serve.
Mulheres que Correm com os Lobos é um livro que muita leitora recebe de presente de outra mulher, com a frase "você precisa ler isso", e que nem sempre sabe por onde começar a ler. A obra de Clarissa Pinkola Estés, publicada nos Estados Unidos em 1992 e no Brasil pela Rocco, com tradução de Waldéa Barcellos, tem cerca de 576 páginas e uma forma incomum: em vez de capítulos teóricos, reúne mitos, lendas e contos de fadas, que a autora conta, comenta e interpreta do ponto de vista junguiano para falar do que chama de Mulher Selvagem, a natureza instintiva e criativa que, em sua leitura, a vida social tende a domesticar. A pergunta que o livro responde, no fundo, é para onde vai aquilo que uma mulher sente saber e deixa de dizer.
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Quem Escreve e a Quem Ela Responde
Estés é analista junguiana e poeta, e se apresenta também como cantadora, termo que usa para a guardiã de histórias antigas na tradição latina de sua família. Essa dupla voz explica o tom do livro: ela fala como psicanalista, mas conta como quem herdou o ofício de contar, em prosa quase oral, cheia de repetições e de imagens fortes. O conceito central, a Mulher Selvagem, é um arquétipo no sentido de Jung, uma forma universal da psique que aparece em mitos de muitos povos, aqui associada ao lobo pela afinidade que a autora vê entre as duas naturezas, a da loba e a da mulher: o faro, a lealdade à matilha, a capacidade de ficar só e de pertencer.
As Histórias que Estruturam o Livro
O livro se organiza em torno de contos que ela vai abrindo camada por camada. O primeiro, "La Loba", fala de uma velha que recolhe ossos de lobos pelo deserto e, ao montar o esqueleto, canta sobre ele até que a criatura volte à vida e saia correndo; para Estés, é uma imagem do trabalho de recuperar o que dentro de nós ficou esquecido. Outros textos de peso são "Barba Azul", em que uma jovem descobre a natureza do marido em um quarto proibido e a autora lê a história como alerta sobre o predador interno e externo, e "Vasalisa, a Sabida", conto russo em que uma menina enfrenta a bruxa Baba Yaga. Em todos eles, o método é o mesmo: contar, comentar e propor uma pergunta ao leitor, de modo que o livro funciona melhor lido aos poucos, uma história por vez.
Uma Lente: o Corpo que Sabe Antes da Cabeça
Quem dança sabe que o corpo guarda um saber que a cabeça demora a reconhecer: o passo certo vem antes da explicação, e a insegurança aparece nos ombros antes de virar frase. A noção de intuição que Estés defende vive desse território, a ideia de que existe um conhecimento instintivo que a vida social ensina a abafar e que a imaginação, a escuta dos sonhos e o contato com as histórias ajudam a reencontrar. É também o ponto em que o livro pede cautela, porque a linguagem do instinto e da natureza pode ser lida como destino ou essência; vale ler as imagens como convite à reflexão, e não como diagnóstico de como uma mulher "deveria" ser.
O Que o Livro Não É
Não é uma obra acadêmica nem um estudo comparado de mitologia; seu valor está na interpretação psicológica e poética, e especialistas costumam notar que a autora funde fontes e tradições com liberdade de contadora. Também não é um guia prático, e muitas leitoras relatam que passagens mais longas pedem paciência. Para quem deseja conhecer a base junguiana dessas ideias, os conceitos de arquétipo e de inconsciente coletivo podem ser vistos na nossa ordem de leitura de Jung.
Para Quem Esta Leitura Faz Sentido
O livro costuma tocar mulheres em transição (separação, maternidade, mudança de carreira, luto por uma versão de si), leitoras de contos e de mitologia, estudantes de psicologia interessados no uso clínico e cultural do conto de fadas e profissionais que trabalham com narrativa. Se a leitura despertar lembranças difíceis ou sofrimento intenso, vale conversar com um psicólogo e usar o livro como companhia, e não como tratamento.
Qual Edição Escolher
A edição da Rocco, com tradução de Waldéa Barcellos, é a referência em português do Brasil e a que aparece entre as mais vendidas de psicanálise na Amazon, com mais de 40 mil avaliações e nota média de 4,8. A editora também lançou uma versão em capa dura com novo projeto gráfico; para leitura, a brochura basta. A mesma autora tem outros livros, como A Ciranda das Mulheres Sábias, indicados depois deste, e não antes.
Perguntas Frequentes
Preciso conhecer Jung para ler?
Não. A autora explica o essencial no próprio livro, e o prazer da leitura vem das histórias.
É um livro só para mulheres?
O foco é a experiência feminina, mas leitores de qualquer gênero interessados em mito e psicologia encontram material para refletir.
Por qual conto começar?
"La Loba" é a abertura do livro e a mais citada; muitos leitores gostam de ler um conto por vez, com intervalos.
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