Talvez Você Deva Conversar com Alguém, de Lori Gottlieb — O Livro Sobre Terapia Por Dentro, Para Quem Tem Dúvida de Procurar Ajuda

Resenha de Talvez Você Deva Conversar com Alguém, de Lori Gottlieb (Vestígio): a terapeuta que vira paciente, para quem serve e o que o livro não promete.

Compartilhar
Talvez Você Deva Conversar com Alguém, de Lori Gottlieb — O Livro Sobre Terapia Por Dentro, Para Quem Tem Dúvida de Procurar Ajuda

Há quem leia Talvez Você Deva Conversar com Alguém porque já decidiu fazer terapia e quer saber o que esperar, e há quem o leia justamente para adiar a decisão, com a desculpa de que "o livro já ensina". Lori Gottlieb, psicoterapeuta de Los Angeles, escreveu um relato que serve aos dois grupos porque faz uma coisa pouco comum: coloca a terapeuta no consultório de outro terapeuta. O livro foi publicado nos Estados Unidos em 2019 e no Brasil pela Vestígio, com tradução de Elisa Nazarian e 448 páginas, e se lê quase como romance, com capítulos curtos que alternam a vida de pacientes e a dela.

Para quem quer espiar como é uma terapia antes de começar a sua. Ver preço na Amazon →

A Terapeuta Que Vira Paciente

O ponto de partida é uma crise pessoal de Gottlieb, que a leva a procurar um terapeuta chamado Wendell, descrito pela editora como um profissional experiente e meio excêntrico. A partir daí o livro corre em duas linhas: de um lado, quatro pessoas que ela atende, entre elas um produtor de Hollywood centrado em si mesmo, uma recém-casada com uma doença grave, uma mulher idosa que ameaça tirar a própria vida no aniversário se nada melhorar e uma jovem que se envolve sempre com as pessoas erradas; de outro, a própria Gottlieb sentada no divã, aprendendo o que dizia a seus pacientes sem nunca ter precisado ouvir. Os casos são recompostos e têm detalhes alterados para proteger quem aparece neles, como é praxe nesse gênero, e é bom ler com essa chave: o interesse está menos no "caso" do que no movimento humano que ele revela, a distância entre o que a pessoa diz querer e o que de fato a mantém presa.

O Que Ela Mostra Sem Dizer em Voz Alta

A grande virtude do livro é desmistificar a sessão. O leitor vê que a terapia não é uma consulta em que alguém entrega a resposta, e sim um espaço onde o assunto declarado raramente é o assunto real, e onde o terapeuta também erra, se irrita e se assusta. Gottlieb mostra o quanto a gente conta a si mesmo uma versão conveniente da própria história e o quanto a mudança começa quando alguém a reescuta ao nosso lado. Quem já acompanhou uma pessoa querida em sofrimento reconhece a cena: o conselho pronto não ajuda, o que ajuda é a presença de quem não foge do assunto.

Uma Lente: a Cena que Só Anda Quando o Outro Escuta

Quem faz teatro sabe que uma cena não anda se um dos atores só espera sua vez de falar. A boa cena acontece quando o ator escuta de verdade, se deixa afetar pela fala do outro e responde a partir disso, e não do texto que preparou. Boa parte do que Gottlieb narra tem esse desenho: o paciente chega com um roteiro, o terapeuta acompanha sem se prender ao roteiro, e a sessão começa de fato no momento em que o texto ensaiado falha. A comparação serve também a quem lê, porque sugere que fazer terapia pede menos "saber o que dizer" do que aceitar ser surpreendido pelo que se diz.

O Que o Livro Não É

Talvez Você Deva Conversar com Alguém é um relato, e não um manual nem um substituto de acompanhamento. Ele não ensina a diagnosticar a si mesmo, não explica abordagens teóricas de forma sistemática e traz a perspectiva de uma terapeuta norte-americana, com costumes de consultório que nem sempre coincidem com a prática brasileira. Há também cenas pesadas, entre elas a de uma pessoa que fala em tirar a própria vida, que podem mexer com quem está sensível.

Para Quem Esta Leitura Faz Sentido

Faz sentido para quem tem curiosidade ou receio da terapia, para quem já faz e quer ver a experiência refletida em um texto bem escrito, para estudantes e jovens profissionais que desejam enxergar o ofício por dentro e para quem cuida de outras pessoas e se esquece de si. Para quem está em sofrimento intenso, o livro é um estímulo, e o passo seguinte é procurar um psicólogo ou um médico. Se pensamentos de acabar com a própria vida aparecerem, o CVV atende pelo 188, gratuitamente e a qualquer hora (cvv.org.br).

Qual Edição Escolher

A edição de referência é a da Vestígio (448 páginas, tradução de Elisa Nazarian). A mesma editora lançou dois companheiros de leitura: um workbook, que propõe exercícios de escrita para revisar a própria história, e um diário com sugestões semanais; ambos funcionam como complemento e fazem sentido só depois do livro principal.

Perguntas Frequentes

É preciso fazer terapia para ler?

Não. O livro é escrito para o leitor comum e conduz quem nunca entrou em um consultório.

Sim, como porta de entrada. Ele ajuda a dar nome ao receio, mas a decisão de começar é sempre do leitor, e nenhum livro faz o trabalho de uma sessão.

Os casos do livro são reais?

Gottlieb os baseia em atendimentos, mas altera detalhes para proteger as pessoas; o que se aproveita é o retrato do processo, e não a biografia de alguém identificável.

Para conhecer a terapia pelos dois lados da sala: Talvez Você Deva Conversar com Alguém, na Amazon →

Leia também